28 Dezembro 2017      17:40

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LÁPIDE EVOCATIVA DA FUNDAÇÃO DA CIDADE DE ÉVORA E A CIDADE DE ÉVORA

O que não conhecemos, o que não entendemos é desprovido de sentido e de significação. A lápide de mármore epigrafada, escolhida para este texto, é muito e nada ao mesmo tempo. É muito, porque é um testemunho importante da história cultural, social e organizacional da cidade de Évora na Idade Média e é nada porque é ciclicamente esquecida e ignorado o seu significado. Também a forma como está apresentada no Museu Nacional Frei Manuel do Cenáculo a traz em parte oculta, desprovida de entendimento, mal comunicada, aligeirada e conduzida ao apagamento da memória. 

A lápide de mármore branco, com dupla inscrição em árabe dos séculos X d.C. e XII d.C., com 40 cm de altura, por 63 cm de largura e 6 cm de espessura é um testemunho raro, muito raro, de escrita árabe em cúfico arcaico. Pela sua raridade e excecionalidade esta lápide prova que Évora foi um dos principais centros de poder e cultura do século X na Península Ibérica, só em cidades importantes e que se destacavam pelas gentes e os territórios que representavam mereciam as honras de lápides evocativas de reconstruções e fundações.

O curioso desta lápide é que ela está duplamente epigrafada, numa e noutra face, mas os textos foram inscritos em momentos distintos da história da cidade e da presença árabe em Évora. Curioso é também que por opção do Museu, hoje nenhum texto descritivo a acompanha apesar de ser uma peça de destaque do áudio-guia do Museu, quem optar por não usar essa ferramenta e não conhecendo árabe antigo, fica impossibilitado de saber a importância daquela peça para a história da cidade de Évora e para a História de Portugal, que resumindo, reza assim: os árabes chegam à Península Ibérica em 711 e é rápida a sua expansão pelos territórios do sul estabelecendo-se as novas gentes, a nova religião e cultura.

Évora era uma cidade do Império Romano, construída e ordenada por estes, mas em poucos séculos e já na fase de abandono a cidade degrada-se, desaba e as investidas cristãs de ataques e saques arruínam por completo áreas inteiras da cidade. Aliás, parece ter sido esse estado de ruína e a acumulação de lixo que facilitou a investida árabe que tomou a cidade. A inscrição mais antiga, escrita em cúfico arcaico é a face exposta no Museu. Dá a notícia da reconstrução da cidade de Évora por Abd Alláh Ibn Muhammad al-Jiliqi (senhor de Badajoz) no ano 302 da Hégira (ano 914-915 d.C). As reconstruções passavam por adaptar as cidades à nova cultura e religião, por construir mesquitas, palácios e ordenar a cidade por práticas e ofícios dos novos residentes, de que nos ficaram as mourarias, bairros residenciais e de ofícios, distribuídos por área de trabalho, olarias, curtumes, etc. A outra face da lápide é escrita em cúfico simples e nela está inscrita a notícia da fundação da cidade por Abu Muhammad Sidray Ibn Wazir al-Qaysi no século XII d.C., no conturbado período almóada e almorávida. Em 1165, reconquistada a cidade para Afonso Henriques, a cidade é repovoada e rapidamente se perde a capacidade de ler árabe e até de ler.

A cidade mergulha na Idade Média das muralhas, do senhorialismo, do feudalismo e outras formas de peste e a lápide termina partida e reutilizada como cabeceira de sepultura num enterramento cristão ainda na idade Média e só descoberta em 1968 em obras realizadas no Museu de Évora. A lápide estava a servir de cabeceira de sepultura não porque estivesse epigrafada, provavelmente já ninguém reconhecesse estes sinais como letras, mas porque era uma pedra de mármore e por isso distinta das outras. Este foi, aliás, o destino de muitas epígrafes, árabes ou romanas, que por serem feitas em pedras mais nobres, foram sucessivamente reutilizadas como ornamento e por isso não é estranho encontrar epígrafes e outros elementos arquitetónicos nas soleiras de portas, no reforço de esquinas ou noutros locais, reaproveitadas com fins estéticos ou meramente funcionais. São estes os testemunhos da cultura e presença árabe que a cidade de Évora ainda preserva e revela e hoje a arqueologia põe a descoberto em cada intervenção no Centro Histórico, mas tal como no Museu também estes testemunhos andam ocultos e manca a sua divulgação e comunicação remetida para relatórios de acompanhamento arqueológico enviados à tutela, arquivados como prova, acedidos só por investigadores, sem divulgação nem comunicação da atualização de conhecimento.

A responsabilidade da Autarquia neste apagamento da história, na sua desvalorização e má utilização é total e a vários níveis. À ausência de interesse sobre o património arqueológico de Évora, cidade e território envolvente, acresce a negligência com o projeto editorial de divulgação da história e património cultural da sua responsabilidade. Évora é uma cidade Património Mundial UNESCO, é candidata a capital Europeia da Cultura em 2027, classificação honrosa e projeto de desenvolvimento alicerçado na cultura e muito corajoso, mas parece não haver vontade de trabalhar a história e cultura da cidade e dar continuidade ao mais importante projeto editorial da cidade que é a revista A Cidade de Évora onde esta divulgação e reflexão sobre a cidade deveriam ter lugar a cada dado novo e avanço no conhecimento.

A revista A cidade de Évora é um instrumento fundamental de cultura, de preservação e divulgação de estudos históricos de Évora e do Alentejo e por cada ano que passa sem a sua edição a cidade fica mais pobre. A revista A cidade de Évora é até um pouco parecida com esta lápide, porque é um caso raro e muito importante de divulgação de cultura e ciência a sul do país, uma referência a nível nacional e internacional e que a Câmara Municipal de Évora abandonou, interrompendo décadas de valorização e divulgação de cultura e apoio aos investigadores que tinham ali espaço para publicarem e divulgarem os seus trabalhos de investigação e a cidade e os seus cidadãos a oportunidade de a cada número conhecerem os avanços e novas reflexões no conhecimento sobre a cidade de Évora.

Qualquer cidade e o Museu dessa cidade coincidem no que nos estatutos do Conselho Internacional de Museus (ICOM) define um Museu: “o museu (como o governo de uma cidade, opinião da signatária) é uma instituição permanente, sem fins lucrativos, a serviço da sociedade e do seu desenvolvimento, aberta ao público, que adquire, conserva, estuda, expõe e transmite o patrimônio material e imaterial da humanidade e do seu meio, com fins de estudo, educação e deleite”.

Para completar a informação sobre esta lápide exposta no piso da entrada no Museu Nacional Frei Manuel do Cenáculo, consultei o artigo “Duas inscrições árabes inéditas no Museu de Évora” por Artur Goulart de Melo Borges, nos n.º 67 e 68, ano XLI-XLII, 1984-85 em A Cidade de Évora.

O Museu Nacional Frei Manuel do Cenáculo tem entrada gratuita aos domingos e feriados até às 14h para todos os cidadãos residentes em território nacional. O texto e fotografia são da exclusiva responsabilidade da autora.

 
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