26 Outubro 2019      14:02

Está aqui

Kalimero

Recordo-me tão bem de ti, quando ainda tinhas metade do ovo na cabeça e era o pinto frágil e tímido que me entrava pela televisão a dentro. E eu ficava contente e gritava, obrigado, obrigado!!! Fora eu grego, soubera eu o significado do teu nome. Kalimero, obrigado, obrigado. Encontramo-nos ambos, depois, muito mais tarde e mais velho. Não te reconheci à primeira vista. Talvez fosse porque o ovo que até aí tinhas na cabeça, era aquilo que te diferenciava dos outros. Bem, também poderia ser a tua timidez. Kalimero. Encontrei-te e não te reconheci no primeiro momento.

Teria eu bebido a segunda cerveja e perdido os sentidos ou não serias tu? Kalimero? Chamei o nome após cinco minutos a decidir o que fazer. Kalimero! Percebi que eras tu que estavas ali a minha frente, sem ovo na cabeça, mas com algum rasgo de timidez. Continuavas a ser a mesma pessoa que tinhas sido quando te via na televisão e te achava estranho e admirava. Nada em ti era igual. Por causa do sabão, deixaste de ter a tez escura e eras um homem crescido. A fragilidade tinha fugido de ti, como talvez, embora achasse que não, a minha teria fugido de mim.

Não era possível encontrar semelhanças entre nós. Eras só um desenho animado, um boneco que aparecia na televisão a preto e branco lá de casa, a quem eu gritava obrigado, obrigado, sem saber quem tu eras e muito menos perceber uma palavra de grego. Mas gritava forte e ao longe, kalimero, obrigado, kalimero.

Só podias ser tu, deduzi quando te perguntei se nos conhecíamos. A tua resposta foi clara e concisa. Claro que sim. Desde pequeno que te vejo do lado de fora da televisão e desde pequeno que gritas o meu nome e me agradeces sem que saibas muito bem porquê.

Cresceste e fizeste-te um homem. Grande, forte, sem olhar para o lado. E eu, ainda com o ovo meio enfiado na cabeça, olhava para ti e respeitava o teu ar de quem atravessara o mar vermelho como se fosse Moisés.

Kalimero conhecia-me, talvez melhor do que eu próprio a mim mesmo. Eram dele as palavras, naquele diálogo de dois amigos que se reencontram anos depois. Um de ovo na cabeça e outro cabeça de ovo. Rimos ambos da analogia.

Confessei que não te reconheci ao princípio. Como poderias ser tu? Saltaste da televisão para fora? Inundaste com as palavras os espaços vazios e tropecei nas gotas que deixaste atrás? Talvez tenha sido e percebi que, quando crescemos, a visão se torna turva e a nossa imagem dos crescidos e daqueles da nossa idade se redimensiona.

Eras tu. Confirmaste-me, mas não era preciso. Sabia que eras tu porque só tu poderias saber que era eu também. Um de ovo na cabeça e outro cabeça de ovo.

As palavras fluíram durante horas. Nunca tínhamos falado tanto. Aliás, creio que, quando estavas na televisão, nunca tínhamos falado. Mas eras tu.

Preenchi-me e fiquei contente. A felicidade de te reconhecer e poder dizer kalimero e obrigado numa língua que não conheço, deixaram-me contente.

Já não era preciso dizer-te tantas vezes kalimero. Já não precisavas falar para mim. Enquanto isso, as palavras esqueciam-se no ar, quando saíam da nossa boca.

Kalimero. Foi bom rever-te. Agora preciso continuar o meu dia. Há alguma coisa de adulto a fazer.

Fechei a porta do guarda-roupa e o espelho escondeu-se, tímido, junto aos meus casacos, frios de inverno. Kalimero agradeceu o silêncio e eu pensei que me lembrava daquela palavra nalguma língua...

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