14 Maio 2016      12:01

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JOGO DE CARTAS

"PARALELO 39N"

Manuel só tinha um vício: jogar às cartas. Jogava todas as tardes. Jogava sempre com o mesmo humor, à bisca, à sueca, aos três setes e à lerpa. No clube recreativo, lá no meio da vila, mal passava a hora de almoço, lá se dirigiam, Manuel e os seus amigos, para mais umas partidas. No meio, umas minis frescas pagas pelos que perdiam. Ora venha lá mais uma rodada. O jogo exigia sempre muita concentração. Nem sempre a habilidade servia para ganhar o jogo. Dependia muito da mão e da capacidade do parceiro para perceber a comunicação não-verbal e os trunfos. A qualidade das cartas, já gasta de tanto jogar, ajudava a conhecer o baralho e Manuel era um dos mais experientes. Já nem se lembrava bem da última vez que tinha perdido um jogo.

Manuel tinha sorte no jogo, como tinha tido sorte no amor, contrariando a sapiência popular. No casamento, encontrou a mulher da sua vida e viveu sempre cada dia com um sorriso no rosto. Tiveram os seus problemas, como todos os casais, mas, no geral, tinha sido uma vida cheia. Cheia de filhos, cheia de coisas boas, cheia de tempo entre os dois.

Agora, na parte poente da sua vida, como costumava brincar, vivendo com a sua reforma de trezentos euros por mês, tinha uma vida mais calma. Já se tinham acabado os tempos de levantar de madrugada e trabalhar no campo se sol a sol. Manuel passava, agora, pouco tempo na horta. Ia lá regar o feijão, as alfaces, as tomateiras e todas as outras hortaliças, uns dias de manhã, outros de tarde, pela fresca. Depois, o almoço em casa, as notícias da uma, um copo de tinto a acompanhar e rumava à tasca onde o grupo já o esperava, sentados nas cadeiras, chávena de café e bagaço em frente.

Faltava só Manuel para a jogatina começar. Fossem copas, paus, ouros ou espadas, o importante era que o trunfo fosse rico e que os ases dessem resultado, mais fortes ainda do que as biscas. Às vezes, davam-se puas, outras vezes eram só duques e cenas tristes e não se ganhava nada. Mas os artistas do jogo não desistiam e era um ritual que os fazia viver e renascer a cada dia. Só tinham esse vício. Sentar-se durante horas a desconfiar e a tentar superar a equipa adversária.

Como se de um conto de fadas se tratasse, numa terra onde essas coisas nunca tinham feito eco, lá jogavam reis contra valetes em busca da dama. A espada seria mais forte, mas, no fundo, as copas eram o trunfo e todos ganhavam algo. A vida era, em súmula, uma grande partida de cartas. Participavam até em torneios que davam galos aos mais fortes. Fora do jogo, ficavam os jokers e o dez. Manuel e os amigos, vizinhos e solitários de uma vida, entendiam-se tão bem que já as palavras eram dispensadas e as palavras eram um jogo de cartas. Todos os dias havia uma rotina, todos os dias havia um ritual e, como num jogo de cartas, cada dia da sua vida comum era, na parte poente dos anos, o desejo de vencer mais uma partida e não deixar que se acabassem as rodadas e os trunfos.

Imagem via Visualhunt.

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