12 Outubro 2019      13:11

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Imprudência

Gavina! Gavina! Gavina! Gritava o homem a peito cheio, na discussão que travava com a vendedora do mercado. No lugarejo de Imparável, ninguém parava o ímpeto consumista dos habitantes de Imparável, que por acaso se chamavam imparáveis. No lugarejo ninguém parava, nem a dormir. Nessa altura, toda a aldeia sonhava, que era a mesma coisa que estar a fazer alguma coisa.

O rebuliço e a agitação daquele lugar impressionava a aldeia vizinha, a localidade de Quietos. Faz-me esta história lembrar a curiosa toponímia que no nosso Alentejo e particularmente de Almodôvar e São Barnabé, nas povoações de Felizes e Cansados.

Ora, voltemos à nossa personagem principal é o melhor exemplo que, por contraste, acentua a natureza da povoação. Chamava-se Ingrato e tinha nascido nos Quietos. Na idade adulta, conheceu Inácia, num cruzamento da estrada que unia os Imparáveis aos Quietos. Para que vejam a diferença, o limite de velocidade nas ruas em Quietos era de 120, enquanto que em Imparáveis, era de 20. Isto porque toda a gente corria e acelerava e era um imbróglio. Ingrato e Inácia apaixonaram-se. Casaram e foram infelizes, que é o que acontece quando os opostos se atraem. Ingrato quieto tentava fazer a vida normal todos os dias, mas não era fácil. A mulher era hiperativa e as crianças que tiveram, bipolares. Ora corriam, ora ficavam paradonas como se fosse o Sol que girava à volta da terra. Muitas vezes, os Imparáveis assim acreditavam, pois o dia não era suficiente para acompanhar o seu ritmo.

Ingrato todos os dias ia ao mercado comprar ingredientes para o jantar. Ia logo de manhã pois levava muito tempo até chegar lá e voltar a casa. Quando chegava, já a mulher tinha arrumado tudo cinco vezes. A partir daí, zap zap, corta uma batata, descasca um pepino, arranja uma beringela e uma courgette, e estava preparada uma perfeita sopa, acompanhada de assado no forno. Nesse dia, o menú era iscas. Ele levava duas horas a comer, a mulher levava dois minutos e as crianças tinham dias.

O mercado nesse dia onde decorre a nossa história estava particularmente ocupado, toda a gente corria de um lado para o outro. Já não era a primeira vez que ele, na sua calma e a mulher daquela banca específica, das iscas, e carnes variadas, tinham altercações. Aquela foi a gota de água.

Ingrato, que não o era, não gostava da mulher e ela nutria igual sentimento por ele. O leite derramou-se, literalmente, quando a mulher lhe vendeu iscas de coelho dizendo que eram de vitela. Quieto por nascimento, Ingrato assumiu uma revolta tão grande. Já era, por si, diferente de todos os outros, mas enganarem daquela forma uma criatura só por ser diferente e de outro lugar com costumes antagónicos, parecia-lhe ultrajante. Era, numa palavra, inadmissível! Chamou de tudo à mulher: Gavina, Gavina, Gavina! E agarrou num presunto e correu dali para fora. A partir daí ninguém mais o parou. Quando chegou a casa, a mulher boquiaberta com a história e energia do marido, ficou inerte. A partir daí tudo foi diferente. Tudo, menos as crianças que continuaram a ter dias.

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