18 Janeiro 2019      19:26

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III. O outro lado da porta

Amaro fez a barba com uma máquina usada e enferrujada que usava uma vez por semana. Os pelos tinham-se tornado demasiado resistentes àquela velha máquina. Deixou-lhe a cara marcada de feridas e áreas em que os pelos teimaram em ficar. Ficaria um pouco melhor do que aquilo que estava antes. Pousou a máquina em cima do lavatório e não mais se lembrou dela. Amaro tivera sempre uma relação sempre complicada com a casa de banho. Apesar de ser o sítio em que estava na intimidade consigo mesmo, em que deixava sair a imensidão de dores e a imundice. Sozinho, um espelho que lhe mostrava aquilo em que se tinha tornado. A barba mal desfeita, o cabelo grisalho e rebelde.

Precisaria alguém que lhe fizesse a barba mas não tinha ninguém. Vestiu uma roupa usada. Esquecera-se de ir à lavandaria. Mesmo que fosse não saberia como lavar a roupa. Sempre tinha sido habituado a que lhe fizessem tudo.

Saiu do quarto. Ultrapassou a barreira psicológica que era a porta daquele quarto, naquele lugar. Do lado de fora, umas escadas velhas, roídas das traças. Era tudo em madeira e tinha um tapete sujo. Lá em baixo, na entrada, um homem muito gordo era o recepcionista. Falava uma língua que Amaro não percebia. Ao trocarem olhares o forte murmurou umas coisas que não se percebiam mas a comunicação não verbal e agressiva mostrava a Amaro que o homem reclamava em relação à falta de pagamento de renda. Até esse dia e já tinham passado alguns dias, a não ser o primeiro pagamento, nada mais tinha entrado na pensão. Amaro fingiu que não percebeu. De facto, Amaro não percebia língua nenhuma a não ser português. Arranhava um pouco de inglês, mas sem conseguir desenvolver um discurso profundo.

Tinha casaco vestido e umas botas que impediam que o frio lhe entrasse tão fortemente pelos pés e pernas acima.

Fora da porta, o gelo tinha-se acomodado durante a noite. Parecia que lhe rasgava a pele cada um dos sopros irritantes do frio. O dia estava gelado. Amaro tinha, desde há muito, fobia de sair à rua. Havia dentro dele um nervosismo enorme que crescia à medida que se aproximava da porta. Naquele dia, ultrapassou esse medo e saiu de casa. A rua gelada. Amaro quase se esquecera de como andas e ao colocar os pés naquele chão gelado e tentar atravessar a rua, escorregou no gelo e, numa cena indescritível, bateu com a cabeça no chão violentamente ao ponto de o deixar inconsciente de imediato.

Amaro depressa foi rodeado por pessoas que ali passavam e outros curiosos. Uma dessas pessoas ligou para os serviços de emergência de imediato. Uma poça de sangue começou a formar-se no chão onde pousava Amaro continuava inconsciente.

A ambulância demorou um quarto de hora a chegar. Enquanto isso, as pessoas falavam entre si, em pânico. O que acontecera? Quem era aquele homem? Como se permitira cair naquele lugar? Só Amaro poderia responder se voltasse a falar, se os seres olhos se abrissem e pudessem comunicar com as pessoas que estavam à sua volta.

Encaminhado para o Hospital mais próximo, foi colocado numa cama. Foi operado de emergência e continuava adormecido. No fundo da cama, talvez estivesse um papel a dizer Nome Desconhecido ou John Doe. Só ele poderia dizer o nome. Ninguém o sabia e não transportava consigo a identificação. Pouco se interessava que soubessem o seu nome. Até preferia que ninguém o soubesse. Havia uma vida que queria deixar. E ninguém sabia mesmo o seu nome, nem o seu percurso.

Passaram-se dias naquela cama, sem nome e no último desses dias, à hora certa, Amaro sucumbiu e não voltaria a acordar. Morreu sem voltar a abrir os olhos, sem voltar a falar. Naquela cama, sem nome.

 

(Continua)

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