5 Outubro 2019      12:05

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Hiato

Hugo andava louco naquele tempo. Naqueles dias em que nada crescia nas planícies ou nos campos imensos, Hugo sentia-se profundamente infeliz. Não creio que mesmo que viesse a chuva, deixaria de assim ser. Habitava num local perdido entre duas grandes cidades.

O nome fora-lhe dado por isso mesmo. Entre as cidades imaginárias de Heráclito e Herodia, Hugo morava no pequeno povoado de Hiato.

Era uma localidade particular onde nada crescia como vos pude já dizer e nela Hugo tinha um papel determinante. Andava louco. Toda a gente sabia. Assim andava mas não se importava com o que dizia. Era um dos mais importantes homens de Hiato. Era o Presidente da Câmara. Eleito há menos de um mês, tendo recebido a confiança de tantos quantos metade da população e mais um. Ou seja, maioria absoluta. Havia dois candidatos, um era Hugo e o outro o atual presidente.

Embora nada tivesse a ver, a culpa da seca era a si atribuída. Hugo prometia fazer as coisas de forma diferente e trazer a água, as plantas e a felicidade de volta.

Como, não sabia, mas haveria de dar o seu melhor para chegar ao objetivo final, já que lhe tinha sido dado o voto de confiança para isso mesmo.

Uma semana depois da vitória tomou posse e passou a ser Hugo, o Presidente. Andava louco. Era importante fazer as reformas. Não podia mudar o nome da cidade mas havia ali uma lacuna. Nada podia fazer mas faltava algo aquela cidade. Talvez os deuses se tivessem chateado com eles e, por isso, castigado. Quem se lembra de chamar Hiato a um lugar? Quem sabe o que é um Hiato, seguindo esse pensamento...

Hugo consultou as mais diversas entidades supernaturais. Fez de tudo para tentar perceber o porquê. As entidades falaram com ele, embora em palavras repletas de hiatos. Foi assim, disseram-lhe, que há muitos anos atrás, este lugar que se chamava Ditongo, muito o seu nome.

A primeira decisão, terminado o longo processo de consulta, foi a de mudar aquilo que eram os nomes das ruas. E mudaram todas para palavras com hiatos. Passou a haver a Rua da Moeda, Rua do Hiato, Rua dos Juízes, Rua da Cafeína, Avenida do Baú, Travessa da Rainha e Beco do Fiel.

Já não andava tão louco e as sondagens davam-lhe boas perspectivas de futuro.

As pessoas agradeciam a mudança. Tinham conversa para alguns meses.

Não tinha porém cumprido o principal objetivo, restituir H2O. Num inovador projeto hídrico por si pensado, tinha a estratégia toda definida e passava por helicópteros, uma barragem hidroelétrica e, não se sabe bem para que, hipopótamos. Dois.

Era simples, os helicópteros enchiam as grandes bolsas numa barragem hidroelétrica. Despejavam os recursos hídricos num reservatório que abastecia todas as habitações e punha aí os hipopótamos, para que ninguém os roubasse. Já não faltava nada a hiato. O vácuo enchera-se com água.

E, nesse dia, lá decidiram mudar o nome da povoação que passou a ser Hidra.

Ainda assim o hiato continuou a viver nas ruas e avenidas.

Hugo foi reeleito por mais 4 anos.

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