16 Fevereiro 2020      13:29

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God Told Me To – parte 2

Moisés levou o povo eleito (a metáfora possível) para a um lugar seguro, Jesus deixou-se morrer. Ambos foram tentativas falhadas do criador. Demasiado humanos – esqueceram as suas alianças mais profundas, criaram empatia com a espécie que os viu crescer e não com a entidade que os fez diferentes, enviados especiais. Separados por demasiado tempo, talvez. Removidos pela raiz. Rebeldia supra-humana, esta, tão distinta e cuja essência sempre tivemos dificuldade em compreender (mais uma vez, a metáfora possível).

Hoje (tempo moderno – simbólico) as crenças a larga escala já estão praticamente todas ocupadas, não há magotes disponíveis para novas certezas transcendentes feitas lei ecuménica. Um deus criador, não tendo conseguido passar a mensagem, tendo-se dispersado, cada vez mais pedra e menos coração, já não vai lá pela palavra. Resta-lhe, portanto, o caos, pois daí chega ao medo. Uma espécie perplexa e assustada torna-se incapaz de aceitar a solidão da individualidade, que pesa toneladas; todos muito juntinhos e acantonados a partir de agora, entretidos (uns mais que outros) com o mal que os transcende enquanto tentam resolver o mistério mais recente. Um porquê apesar de tudo operacional, com o outro, o que transcende, perdido nas linhas inóspitas, no absoluto do livros-dos-livros (cada um com o seu na cabeceira). Nada de novo, apenas levado a um ponto mais próximo do extremo.

O nosso herói – redentor imponderável e com rosto demasiado característico para parecer herói – sofre, tal como outros antes dele, de excesso de humanidade; mas desta vez nada foi transmitido superiormente, pelo que pouco o distingue dos seus semelhantes. É mais um a viver na perturbação contínua. Imerso no mistério prático (ainda para mais é um agente da autoridade), pendente da crença no divino e, sorte malvada, perdido nos lapsos de uma memória descontínua.

Todavia, se o percurso intermédio é o de qualquer um, o destino é o mesmo do seu antecessor mais famoso. O sacrifício pela salvação dos pobres de espírito. Só que sem direito a recompensa, ao imberbe reconhecimento do divino nele pelos pares redimidos, salvos por agora. Os tempos que vive, que vivemos, científicos e desoladores por igual, a isso levam. O sapiens não está mais próximo da iluminação, mas, quem sabe, talvez esteja mais próximo do que lhe resta de verdade. Enfim, a sua existência também na dor – para que conste, o que determinou o fim do mensageiro da mudança, o enviado menos humano de todos, foi precisamente não compreender o quanto de dor a vida também necessariamente contém; viveu e liderou excessivamente encostado ao limite, julgando-se fora da sua abrangência, por assim dizer; exibir com insistência poderes vedados aos outros fez dele um comandante incontestado e temido, um administrador de sofrimento e morte com aura de intocável, porém essa distanciação não lhe permitiu ver o óbvio em si senão quando já era tarde demais: era hipersensível à dor – o contacto não controlado com o outro era possível, e também a sua fraqueza... A sua perplexidade exposta.

Eis um filme sobre a imanência do imperfeito; posicionamento destemido do autor/realizador, dado o tema, propenso a temores e rejeições desde que a palavra se fez escrita, e que por uma vez é levado às últimas consequências. Era a isto, suponho, que se referia Scorsese quando ligava de modo preciso as palavras risco e cinema no artigo recentemente publicado no The New York Times.

 

Imagem de whysoblu.com

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