29 Setembro 2019      06:10

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Gastrologia

Chico Alfarroba dava todo um novo significado à palavra gastrologia. Nascido numa família de longa tradição de comilões, Chico Alfarroba tinha nascido completamente o oposto de toda a família. A alcunha ganhara-a por ossos do oficio. Mas disso falaremos adiante. Permiti-me caracterizar a família de Francisco António da Cruz Feliciano da Silva Guimarães Guerra e Gonçalves. A mãe e o pai tinham uma tasca no meio da vila. Era um verdadeiro local de peregrinação por todos e lá se poderiam comer os melhores pernis, as melhores migas de espargos, o entrecosto, a verdadeira açorda, o cozido de grão e o ensopado de borrego. Havia muito boa gente que nem fazia comida em casa só para ir petiscar os carapauzinhos fritos, a salada de grão de bico, os pezinhos de coentrada e a orelha de porco com coentros, azeite e alho. Era a verdadeira romaria da gastronomia. Agora até rimei sem querer. Mas a ideia mesmo é falar de gastronomia. Iniciado pela letra G, o nosso motivo desta semana, ficamos a falar de gastronomia e, por extensão, de gastrologia... essa verdadeira ciência e, claro, no cientista que a melhor representa - bem mais nem menos do que o nosso Chico Alfarroba.

Depois de tanto comer no restaurante tanta coisa boa, a criança, isto porque na altura ainda o era, apanhou uma gastroenterite tão forte que andou mais de uma semana a comer alfarrobas e água de farinha. Não podia e muito menos conseguia comer algo mais além da boa da alfarroba. Na escola primária, onde todos sabemos, as crianças conseguem ser cruéis, e logo logo passou o Francisco que tinha uma data de nomes a ficar só conhecido como Chico Alfarroba.

Foram anos muito difíceis. Tanto que mudaram para sempre o rumo daquela criatura que seria, por definição, mecânico. Porquê? Não sei.

Revoltado com a sua alcunha, e determinado como era, agarrou no tasco dos pais e tornou-se num chef de luxo. As sobremesas do restaurante, evolução natural de tasca para restaurante... passaram a ser de alfarroba. Muitos pratos incorporaram também esse particular ingrediente do sul de Portugal, e Chico era feliz. Todos os pratos enfarta-brutos da tasca dos pais foram ficando mais pequenos, mais gourmet.

Anos passados, Chico tinha-se tornado num verdadeiro gastrólogo, mestre da ciência da gastrologia. Era um prodígio... embora na vila ninguém ligasse muito a isso.

Talvez por isso é certamente por falta de clientes, o restaurante do Chico faliu. Ninguém lá ia... isso entristecia-o um bocadinho, verdade seja dita. Nada que o cozido de grão da mãe não resolvesse e nada que um bom guisado de griséus não resolvesse no fim do dia.

Cansado da vida da gastrologia falhada, Chico Alfarroba mudou o nome para Franz Screw e emigrou para a Geórgia, na América, onde se tornou mecânico e nunca mais comeu alfarroba.

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