26 Junho 2016      19:35

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GAME OF THRONES

FLICK: O MOVIMENTO DAS IMAGENS

Há séries de televisão, filmes e outros conteúdos semelhantes cujo sucesso é incompreensível, ou imprevisível. Não é de todo o caso desta adaptação d’ “As Crónicas de Gelo e Fogo” de George R. R. Martin, que a HBO começou há seis anos. O autor dos livros, popularizado por uma espécie de sadismo para com as personagens principais, recusou a sua adaptação imediata ao cinema, quando publicou os primeiros volumes na década de 90, por dois motivos: primeiro, a noção de que a complexidade da história exigia que a adaptação passasse por uma série, cuja extensão permite explorar os vários cenários e enredos; em segundo lugar, por não existirem na época, meios técnicos suficientemente satisfatórios ou capazes de adaptar os seres místicos ou mágicos aos ecrãs. Mas, afinal Game of Thrones (2011 - , real. David Benioff e D.B. Weiss) é uma série sobre o quê? Fantasia, drama, história, zumbis, política, épico…? Nenhum desses em concreto, mas todos em simultâneo. E isso é apenas um dos ganchos que fazem dela o enorme sucesso que é.

Entre os leitores dos livros, adeptos dos jogos e os seguidores da série, este universo conquistou uma autêntica legião de fãs que procuram não perder nenhum pormenor. E o que não faltam a esta série são pormenores. Entre a acutilância dos diálogos e as sucessivas reviravoltas, numa história cujo contexto vai beber na própria história europeia, sobretudo inglesa, da época medieval e renascentista, o que de melhor nos oferece esta aparente luta de poderes é uma enorme coesão narrativa, disfarçada de aleatoriedade. O que chega a levantar enormes discussões, brigas e até desamizades por causa dos chamados “spoiler’s” (revelações sobre a trama) que invadem a internet e conversas de café nos minutos imediatamente a seguir a cada episódio. Logo à noite, depois do último episódio da sexta temporada, prevê-se um ano inteiro de debate, sobre um dos episódios mais épicos e longos de toda a série.

Contudo, é difícil falar de spoiler's sobre Game of Thrones porque, em 10 minutos de cena acontecem mais desenvolvimentos do que em duas temporadas de outra série qualquer (como em "The Walking Dead", por exemplo). Tudo e nada, é ou pode ser um 'spoiler'. Agora, levar isso ao extremo é tornar isto, que é um produto de entretenimento, numa seita da qual não se pode falar em público. Embora concorde que se deva preservar a surpresa da experiência de visionamento, evitando revelar detalhes fundamentais da trama (todas as vezes que escrevo sobre cinema tenho esse cuidado), há um limite para tudo.

Quando finalmente comecei a ver a série este ano, numa maratona de episódios, naturalmente, já sabia que Ned Stark, John Snow e o Robb Stark estavam mortos; que a Cersei ia ser humilhada; que o Tyrion quase morria num julgamento, em que o Oberyn Martell ia ficar sem cabeça; que Daenerys (mãe dos dragões e uma lista infindável de títulos e cognomes) tinha dragões, um exército e governava uma cidade… Tudo desde o dia em que cada coisa ia acontecendo na série, precisamente porque as pessoas o comentam, na Internet, no café, em todo o lado. Ainda assim, isso não afetou em nada a minha experiência ao ver a série! Nada!

Porque quem morre, ou não, quem fica no trono, ou as intrigas envolventes, não passam de maquilhagem. O verdadeiro sumo desta série é o seu universo. Encontra-se na forma como consegue encaixar uma trama política e diplomática, dentro de um universo de fantasia, que recolhe inspirações quer nas monarquias europeias, quer nos cultos medievais que alimentavam o imaginário da época, conseguindo ainda suplantar algumas suas limitações com diálogos filosóficos e éticos extremamente elevados, numa montagem cativante e intensa com um detalhe profundo, desde a caracterização ao ambiente cénico.

O resto é pintura e ilusão, como as mortes ou até as famigeradas cenas de nus. Distrações, diateticamente úteis, por entre o "fan service", que apenas vão preenchendo o desenvolvimento trágico e o pathos de cada personagem, onde o que menos interessa é quem é o Herói, mas sim quem melhor se consegue adaptar às circunstâncias. É por isso que as mulheres, até aqui sempre em segundo plano e fragilizadas pelo seu papel social inferior, tomaram finalmente conta da ação narrativa, num papel cada vez mais dominante: porque compreenderam que o fundamental era isso, perceber as regras do “jogo” e adaptar-se a elas. Quanto aos spoiler's é quase o mesmo, basta ver os títulos de alguns jornais/revistas/sites no dia seguinte para receber alguns, mas o importante é o fascínio que a série é capaz de gerar, podermos partilhá-lo e não brigarmos sobre isso.

Até porque, esta última temporada, sobretudo com o episódio 9, mas não só, fez ascender a série a um nível de produção, cuidado e projeção que até então ainda não tinha conseguido atingir. Pela primeira vez, não houve um livro que servisse exatamente de guião e embora ambas as narrativas se encaminhem para o mesmo final, tudo indica que adaptação e livros começam agora a afastar-se mais do que nunca. Ainda assim, aquilo que os autores David Benioff e D.B. Weiss conseguiram trazer para os ecrãs de casa foi puro cinema. Cirando autênticos momentos de tensão e descompressão, envolvimento e reação estética, quer através de alguns diálogos ou desfechos, mas sobretudo na forma e cuidado como filmaram e executaram a ação de algumas cenas, como a batalha do episódio 9. Embora não nos absorva totalmente, mais do que nunca, conseguimos sentir uma enorme empatia por cada uma das personagens, transportando-nos para o seu ponto de vista subjetivo, independentemente do nosso apreço por ela. Isto é um feito magistral, que faz jus, não só ao número de fãs que acompanham esta história em todo o mundo, como aos orçamentos que cada episódio movimenta. Hoje começa mais um interregno de um ano, de especulações e teorias, talvez seja uma boa ocasião, com o início do verão, para começar a ler os livros e contos do universo alargado. E para quem ainda não viu, uma boa ocasião para começar a ver uma das melhores séries alguma vez desenvolvidas.

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