21 Setembro 2019      13:03

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Falsificação

Frederico Ferreira Fernandes era falsificador de filmes, fotografias e fotocópias. Habitante de Famalicão, fazia as suas falsificações numa firma de frigoríficos. Amante de cinema, Frederico Ferreira Fernandes tinha uma vida calma e, sempre que podia, ia ao cinema ver um filme. O seu favorito era o Frankenstein. Tinha visto o filme vezes sem conta. Tantas vezes tinha Frederico feito as mesmas coisas que os vizinhos e os habitantes de Famalicão já lhe conheciam as rotinas.

Frederico era um fulano de aspeto frágil e franzino, ainda assim tinha arranjado mulher e contraído matrimónio há muitos anos. Não era natural de Famalicão nem lá tinha casado. A sua naturalidade era Faro, portanto, algarvio de gema. A mulher, Francisca Francelina, era natural da Figueira da Foz e casaram em Fânzeres. Conheceram-se em Ferreira do Alentejo, quando ambos andavam em digressão das Filarmónicas correspondentes e tiveram uma atuação nessa localidade.

O casamento de ambos foi famoso e correu bocas e bocas, pelo inóspito acontecimento que haveria de marcar o dia. Não seria nada de especial, mas ficou conhecido como o casamento das farófias. Após a cerimónia, Frederico e Francisca fizeram o copo de água numa quinta repleta de pereiras e figueiras. As mesas estavam cá fora e fazia uma ventania feroz. O véu na noiva voava pelo ar e, por azar e incompetência do serviço contratado, não havia nem pudins nem leite creme. A única sobremesa eram farófias e essas foram comidas pelo cão de Francisca que, em menos de meio minuto destruiu a comidinha toda.

O casamento foi um fiasco, mas isso não fez com que o casal ficasse fragmentado. Tiveram dois filhos, Fernando e Fernanda. A originalidade não andava na família. A felicidade era uma constante na família. A mulher era farmacêutica, o marido era falsificador e os filhos estudavam numa escola de freiras.

Porém, nem sempre tinha sido assim. Francisca sempre tinha sido farmacêutica e os filhos sempre tinham andado na escola de freiras, mas Frederico não tinha começado por ser falsificador. A sua primeira profissão fora fiscal de obras, mas foi despedido devido à crise financeira. Porque uma das suas grandes paixões tinha sido sempre a fotografia, decidiu começar a ser fotógrafo. No entanto, o negócio foi a falência e decidiu passar a ser falsificador.

Falsificava documentos a toda a hora. A rede dominava toda a área de Famalicão e Frederico era conhecido pelos seus talentos. Francisca não aprovava as falcatruas do marido, mas fazia de conta que não existia nada. Fantasiava em passar umas férias fantásticas na Cote D’Azur em França. Fazia-lhe falta fugir do trabalho farmacêutico em Famalicão. Queria ter um carro melhor, como um Ferrari em vez do Fiat Uno que ela guiava ou o Ford Fiesta do marido. Mas nada disso se concretizava. As falsificações do marido mal davam para pagar as contas às Finanças. E a Farmácia já não dava o que tinha dado um dia. Fazia falta fugir de Famalicão e fundar um negócio em qualquer lugar que fosse mais favorável.

Resumindo, a família decidiu então declarar falência e fechar as portas da Farmácia e da firma de frigoríficos onde Frederico Ferreira Fernandes fazia as falsificações. Os filhos deixaram a escola de freiras. Fugiram no mês de fevereiro e foram para o Funchal. Ainda pensaram em Fafe, mas ficava muito próximo de Famalicão.

No Funchal foram felizes. Frederico nunca mais falsificou nada e Francisca ficou a trabalhar numa clínica de fisioterapia até que os filhos se formaram. Nunca mais voltaram ao continente e num belo dia foram a França, de férias.

               

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