7 Abril 2018      16:17

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Fado

É neste tom magoado que falarei de fado. É no choro desta guitarra que a voz do fadista chorará as sílabas e contará o sofrimento, que as vozes das mulheres e dos homens se tornarão imortais através do som que ecoará nos ouvidos de todos nós, portugueses ou não.

É no dia em que o fado nasceu que a primeira voz, ainda tímida, entoou os primeiros acordes. A guitarra portuguesa acordava e adormecia, entusiasmava-se e desfalecia. A guitarra acompanhava a voz em perfeita sintonia. Assim é desde o primeiro dia e assim será até ao último.

Ao som da voz da saudade, do choro do sentimento que se misturava com o silêncio e que grita no meio das cordas, naquela casa escura e de aspeto rústico. Não havia janelas e, por isso, a luz não entrava com a facilidade das ombreiras. O sol de Lisboa ficava de fora. Lá dentro, as mesas, cheia de gente. Em cima delas, a comida dispunha-se. O pão e o presunto, os chouriços e os ovos com farinheira, as favas e o grão. A comida acompanhava o vinho e a aguardente, e vinham mais dois jarros para a mesa da gente.

Todos os presentes se entretinham, aguardando apenas o momento em que a voz anunciasse que o público se calasse porque se ia cantar o fado. E foi, um dia, já à noitinha, numa casa que, fora nada tinha mas que, dentro, se aproveitava o silêncio para ouvir a dor do fadista. Começou, no canto por se sentar o guitarrista, entoando as lágrimas em forma de som. Os acordes foram dados, lado a lado, a portuguesa e a outra.

Numa mesa, um homem e uma mulher olhavam-se e, através do olhar, trocavam as palavras que não diziam. Levantou-se ele primeiro, e aproximou-se dos guitarristas e, naquele canto escuro, onde só as velas o alumiavam, abriu a garganta que lhe transportava a dor no peito e gelou a pequena sala. Nada mais se ouvia e, até nos momentos em que parava, ninguém ousava emitir um som. Os olhos dos presentes lacrimejava e deixava antever que já todos partilhavam a dor do fadista. É, no fado, a arte maior de conseguir partilhar a dor com todos os outros numa canção. É, do fado, a capacidade de tirar o coração do peito e falar da dor a cantar. É a habilidade de, a cantar, chorar e dizer a rimar tantas palavras que ficam por dizer.

E nisto, terminam os versos, ouvem-se as palmas e a poesia volta a entrar na voz da mulher que fala da distância, que fala do desgosto amoroso, que fala de barcos negros e que nos ensina a cantar. É a fadista que deixa a voz perdurar no tempo e cujas sílabas entrarão no vocabulário nosso e cujo tom não nos deixará ficar indiferente.

É no tom magoado da nossa saudade que nos emocionamos. É nele que as emoções se expressam e nos definem enquanto povo. Nos versos de uma voz rouca ou cansada. Na poesia dos ilustres, musicada em rigor, chorada e partilhada em cordas, vocais e as outras, é o fado. Destino que amarra quem o canta, pranto de quem o sente. Assim é o fado, a música instalada entre quatro paredes, aprisionada no meio da voz e dos sons que não se ouvem.

Poderia, num texto tão simples como este, tentar trazer toda a beleza que, envolta na tristeza e no vazio de não ter, fazem do fado a música que nos une. Entre nós, poderia sussurrar ao ouvido, que a minha voz treme e se arranha quando tento cantar. Poderia contar os desamores e as amarguras. Poderia escrevê-las, em prosa, mas não vos daria a alma da lírica, não vos passaria o encanto dos altos e baixos da voz. Poderia ler em extenso, mas nunca seria tão intenso como a voz da fadista a entoar os versos que alguém criou.

É no tom magoado e particular que o fado dá vida, que o fado é dado e por todos nós partilhado. E, ao fundo, uma guitarra.  

 

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