14 Abril 2016      15:05

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A EXPRESSÃO DO CAFÉ

Hoje, dia mundial do café, quantos já bebeu? Um, dois, três ou quatro? Ou mais? Poucas bebidas podem gozar do estatuto e fascínio que o café conseguiu impor no quotidiano mundial, chegando a ser a segunda bebida mais consumida do mundo, apenas ultrapassada pela água. “Ir ao café”, “estar no café”, “beber um café”, é também uma instituição da identidade portuguesa, que Eduardo Prado Coelho também ilustrou no seu “Nacional e Transmissível”. Por isso, este artigo procura debruçar-se sobre as histórias, os locais e algumas expressões que partilhamos e a que tanto recorremos. Em torno de uma bebida que além da sua história é envolta em histórias, mistérios, lendas, citações, filosofias, e percalços do dia-a-dia.

 

Seja curto, cheio, em saco ou expresso, de cápsula, com ou sem açúcar, pingado ou com cheirinho, com chávena escaldada, mais Arábica ou Robusto, numa mesa cheia ou num momento só, no trabalho ou numa pausa, poucos lhe ficam indiferente. Como diria T.S. Eliot, "Eu medi minha vida em colheres de café".

 

História e Estórias

 

Dizem as lendas que os bagos de café terão sido inicialmente descobertos por um pastor da Abissínia, que ao reparar no efeito estimulante que causava nas cabras de Kaldi, resolveu experimentar alguns e mostra-los posteriormente a um abade. Este último achou que os bagos vermelhos eram uma coisa do demónio e por isso resolveu queimá-los. Dessa torra, que produziu um aroma agradável, acabaria por surgir uma espécie de essência divina que conhecemos hoje. Mas as estórias ao longo da história nunca mais findam.

Se na Etiópia as tribos nómadas ingeriam bagos com gordura animal, como pequenos bolos, diz-se também que os árabes faziam especulação ao ferver os grãos em água e deixando-os assentar para obter uma agradável bebida cuja receita, em segredo, se tornou “a alma do negócio”. Mas rapidamente, com o evoluir das viagens, chegou à Turquia e depois a Roma, e em 1699 até já os ingleses bebiam café. No entanto, o domínio árabe sob o monopólio das sementes, controlando a produção mundial, só terá sido desfeito graças à ousadia de um holandês que contrabandeou algumas sementes de Java para a Indonésia. Sendo que a França também as levou para Martinica. E por fim, Portugal, num curto espaço de tempo, fez do Brasil uma das maiores potências mundiais de produção de café. Aí começou o marketing de guerrilha na competição entre a qualidade e efeitos dos diversos grãos.

Se em Inglaterra o consumo de café disparou devido aos impostos sobre o chá, em Portugal a “Brasileira” oferecia produtos na compra do café, para provar aos clientes habituados ao paladar africano que a bebida do Brasil era tanto ou mais sedutora que a concorrente. Esta mesma casa acabaria por batizar a expressão “bica”, ao afixar um placar para aconselhar os clientes com a frase: “beba isto com açúcar”. Cujo acrónimo passou posteriormente a ser bordado nos panos que acompanhavam o copo indicando simplesmente “B.I.C.A.”.

Esses locais onde se saboreava a bebida, tornaram-se locais de culto, de pragas, de tertúlias e encontros, até aos nossos dias. Ou seja, "local de entrevistas e conspirações, de debates intelectuais e de mexericos", como disse George Steiner, em “A Ideia de Europa”.

 

Rituais, culturas e variedades

Está vincado na cultura ocidental, e Portugal é um exemplo disso mesmo, esta forma de estar, ritualística, de beber um café. De manhã, para acordar, com ou sem companhia, após as refeições ou à noite, enfim, as hipóteses são múltiplas e variadas. Até para escrever um artigo sobre o café, onde o redator já vai no quarto café do dia.

Uns preferem-no curto, outros pedem-no cheio, há quem prefira café passado (já tentou encontrar um expresso no Brasil?), e outros não abdicam do “cheirinho”, ou da “pinga”. Há quem meta açúcar e quem prefira o adoçante, mas os apreciadores genuínos, dizem, não lhe misturam nada. Apesar disso, não faltam colecionadores de pacotes de açúcar, cujas dozes variam de país para país. Já agora, com uma média de três cafés diários, sabe a quantos quilos de açúcar por ano equivale? Cerca de sete quilos e meio. O que, segundo os médicos, pode ser, esse sim, muito prejudicial à saúde, por ser um açúcar de rápida absorção.

Mesmo com a vaga de expansão das cápsulas que podemos ter em casa, nem a rotina de ir a um café como segunda casa parece ter esmorecido, e muito menos podemos colocar em causa a “arte” de manipular o café. Dentro das variedades destas sementes, as Arábia e Robusta são as mais marcantes do mercado mundial. A primeira, mais difundida, apreciada e aromática, possui grãos alongados, baixo teor em cafeina e pouco corpo, além de representar a esmagadora maioria da produção mundial. Já a Robusta, designa-se por ter um grão arredondado e pequeno, sendo mais amarga e forte, com um alto teor em cafeína, menos aromática e não é consumida em estado puro, ao contrário da Arábica. Contudo, a maioria do café resulta da manipulação de uma mistura cuidada ao tom do nosso paladar da quantidade adequada entre as duas.

Assim como acontece na Casa Pereira da Conceição, um dos ícones da Rua Augusta, em Lisboa, fundada em 1933, onde além dos lotes já preparados, o cliente pode escolher e pesar o seu próprio lote, à conta e medida da sua experiência ou aventura. Ou ainda na antiquíssima Casa Macário, fundada em 1913, na mesma rua, cujo proprietário homónimo, decidiu apostar na tendência da época, durando até hoje a tradição da moagem no local e preservando a lista das 18 misturas mais procuradas pelos clientes. Também no Chiado pode encontrar “A Carioca”, fundada em 1936, onde a grande máquina de moagem mantém continua a transportar-nos por viagens entre São Tomé, Cabo Verde, Colômbia, Costa Rica e Angola. Cujos lotes mais procurados são o “Expresso”, o “Carioca” e o “Palace”, entre outros.

Mas se é daqueles que procura sentar-se para um café, aconselhamos ainda outros locais de culto como o “Café Gelo”, antigo pouso de intelectuais, como Fernando Pessoa, Mário Cesariny, Luiz Pacheco, Ernesto Sampaio ou António José Forte. Ou a "Confeitaria Nacional", também em Lisboa, fundada ainda no século XIX. A tradicional e mundialmente famosa, "Pasteis de Belém", ou ainda o glamoroso "Majestic Café". Por fim, deixamos-lhe um pequeno guia sobre os vários tipos de café, para saborear, degustar e se aventurar.

 

Texto de João M. Pereirinha

 

Em baixo, consulte o infográfico de vários tipos de café:

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