3 Maio 2019      17:37

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A Europa entre extremos de uma corda bamba... e sem rede

A Europa está entre extremos de uma corda bamba...  sem rede , e com olhos postos na Venezuela.
 
A um Brexit aos trambulhões, junta-se a Venezuela, num cenário que, a espaços, tem mesmo recordado o clima vivenciado durante a guerra fria. Foi entre este clima internacional conturbado que lá se viu passar mais um 1º de maio, entre extremismos ideológicos idiotas, ou simplesmente eleitoralistas, e até de alguns fanatismos ou ânsia de protagonismo.
 
Por cá, era ainda 25 de abril e Mariana Mortágua, cabeça de lista do Bloco de Esquerda nestas eleições europeias, gritava na rua “Oh meu querido Santo António, Oh meu santo popular, leva lá o Bolsanaro para o pé do Salazar!”. Apresentando-se o BE, tantas vezes, como o paladino da razão, da justiça, estas afirmações são, o mínimo, hipócritas e terão deixado a pensar os responsáveis brasileiros certamente, que andarão ainda em busca de Santa Comba Dão para perceber o verdadeiro alcance desta cantoria. Ninguém falou em mortos, mas que Salazar está morto é um facto. Tal como morto deve estar o sentido de responsabilidade e de Estado. 
 
Já esta semana, quando na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, um (ou vários) idiota colocou uma caixa com pedras e com um  cartaz que dizia “Grátis se for para atirar a um zuca (que me passou à frente no mestrado)”, a mesma Mariana esqueceu-se de que tinha - ainda que indiretamente - apelado à morte do chefe de Estado brasileiro (que a mim também não me agrada, como referi várias vezes em artigos anteriores - e veio colocar-se contra esta atitude e escreveu na sua conta de Twitter, a 2 de maio: “Estamos no ato contra a xenofobia na Faculdade de Direito para deixar claro que “atirar pedras a zucas” não é piada, é discurso de ódio”. E tem razão, muita. Aliás, toda. Pena que, no Dia da Liberdade, não se tenha lembrado de ter tido a mesma perceção.
 
Passando para outro polo, à direita, Nuno Melo refere que o espanhol Vox, que conseguiu uma considerável percentagem de deputados nas últimas legislativas espanholas, não é um partido de extrema direita, que foi um rótulo. Mais, aconselha vivamente a leitura do programa do Vox e referiu que este - o programa do Vox - podia ser o do PP. Problema é que altos dirigentes do Vox não só cantaram o hino de Franco durante a campanha como fizeram a saudação nazi e isto levanta várias dúvidas: ou Melo não sabe o que é o PP, ou o PP quer ganhar votos a Santana Lopes e a André Ventura, ou Melo ainda não percebeu que um bom programa na mão de loucos, não é mais que propaganda.
 
Propaganda essa que as redes sociais têm sido pródigas em difundir, pejada de “fake news” que atacam tudo e todos. Qualquer um ofende quem não opina como ele. Qualquer um defende e diz atrocidades em prol do seu umbigo.
 
Quem não precisa de redes sociais para este exercício propagandista e de defesa do umbiguismo é Kim Jong  Un na Coreia do Norte. A mesma Coreia do Norte onde, João Ferreira, cabeça de lista da CDU nas próximas europeias, em entrevista ao Expresso, disse que a “Democracia não pode ser imposta”.
 
Vivemos num clima em que se critica o que esquerda faz, que se critica o que a direita diz, que defendemos os “nossos” com unhas e dentes e até fazemos por não ver as coisas como são, desde que isso signifique não criticar os “nossos”, mesmo que isso implique a hipocrisia de vir a criticar os outros, examente nas mesmas coisas que fingimos não ver nos nossos. 
 
Como é que podem celebrar o 25 de Abril em Portugal, dizer que a Venezuela ou a Coreia do Norte são regimes democráticos, que ninguém deve interferir com o que lá se passa e em simultâneo criticar de viva voz o Brasil de Bolsonaro pelas ideias defendidas? Quem diz isto, diz examente o inverso; como é que podem criticar Kim Jong  Un ou Maduro e defender Bolsonaro?
Ditatura, falta de Democracia, extremismo, fanatismo não têm cor, não têm partido; são maus e indesejáveis: ponto. 
 
Na Venezuela, várias tentativas de revolta popular e política têm tido espaço, a última, nesta passada semana. Juan Guaidó, que há poucos meses dezenas de países reconheceram como presidente interino da Venezuela, tenta depor o regime esquerdista de Maduro, herança de Hugo Chávez. Ora o regime vigente é apoiado por Rússia e China, entre outros, como Cuba e Bolívia; enquanto Guaidó é apoiado pelos Estados Unidos e pelos países do bloco ocidental. O que assistimos é quase à transformação da Venezuela numa nova Cuba do séc. XXI, enquanto o povo sofre com o regime, e continua a sofrer com a revolução lenta.

A incompetência e os sucessivos casos de corrupção, os buracos na Economia, o caos financeiro por toda a Europa, ou, em Portugal, casos como as nomeações de familiares, por exemplo e para recordar um passado mais recente, vindo precisamente por parte daqueles que se dizem competentes e democratas, têm levado, consequentemente e ao longo dos séculos, à subida de pessoas menos capazes e com ideias contrárias à Democracia e à Liberdade a cargos de poder.

Atitudes como as referidas no início deste texto, também não ajudam, antes pelo contrário.

Na ascensão de líderes populistas e pouco democráticos, a Europa não é exceção - já não foi com Hitler, por exemplo - e com sucessivas eleições legislativas e regionais por esse velho continente fora, tem existido um denominador comum: os chamados partidos da extrema direita têm conseguido uma forte percentagem de votos; segundo algumas sondagens, na próxima constituição do Parlamento Europeu (PE), poderão mesmo ter cerca de 80 eurodeputados.

Esta projeção do Parlamento Europeu tem por base sondagens nacionais, e, a verificar-se nas urnas, fará desta força política a terceira mais representada no Parlamento Europeu, só atrás do Partido Popular Europeu (PPE, centro-direita), e dos Socialistas & Democratas (S&D). A terceira força política da Europa pode mesmo vir a ser uma força que é antagónica aos principais que moldaram a formação da união fraterna entre os povos europeus., nomeadamente, no que toca aos valores. A formação da então Comunidade Europeia preconizava manter uma sociedade em que prevalecessem a inclusão, a tolerância, a justiça, a solidariedade e a não discriminação; valores como a Dignidade do ser humano, a Liberdade, a Democracia, a Igualdade, o Estado de Direito e os Direitos humanos.

Adivinham-se tempos conturbados para as Democracias ocidentais e que deixam em aberto o futuro e a própria existência daquilo que Churchill ousou chamar os “Estados Unidos da Europa”.

Só o exercício democrático - pelo poder do voto - pode assegurar a continuidade da União Europeia e de um sistema que tem garantido a mais longa paz na Europa e minimizado as diferenças entre os países mais desenvolvidos e menos desenvolvidos no território europeu.

 

Imagem de brexitcentral.com

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