30 Março 2019      10:26

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Entropias

Ora, eu naquele sábado entro em Pias, pela entrada que vem do lado da Nacional 2, chego a um café e peço um copo do tinto, daquele do bom dali da terra. Não se tratou de uma grandeza termodinâmica que mensura o grau de irreversibilidade de um sistema, mas sim da minha vontade insuperável em beber um copo daquele tinto de Pias e aproveitar um bom de um queijinho de Serpa. Dei a chave aos meus companheiros de viagem e joguei-me ao copo, mastiguei um bocado de pão e deixei que as minhas papilas gustativas devorassem e se arrepiassem com aquele meu gesto pecaminoso.

Bebi mais dois copos de vinho e abalámos rumo a vila mais próxima. Queria chegar ao Alqueva, e de repente não tinha a certeza se iria lá ter. Continuamos o caminho, já eu enquanto co-piloto num transporte quase repleto de imaginação e maus-feitios, em igual proporção.

Estávamos em 1986 e não havia telemóveis. Era uma chatice, mas era o que era. Ninguém no carro sabia muito bem para onde ir. Nem o Alqueva existia ainda, enquanto barragem. O que havia é o que há hoje, embora com menos água.

Chegámos a uma intersecção e aí o problema começou. Não havia mais nada para além do largo campo alentejano.

Plano, cheio de trigo. Não sabíamos o que fazer.

Durante alguns momentos tinha dormido e quando acordei, estava ainda mais perdido. Olhámo-nos e lá à frente, ao espreitar pela janela vi uma figura que me pareceu um pastor alentejano, como eu. Alentejano, não pastor. Eu era farmacêutico, com muito orgulho. O trabalho tinha-me levado para Lisboa, sem nunca deixar de vir aos campos que mudam de cores conforme o nosso olhar e os nossos sentimentos.

Decidi sair do carro e ir falar com o homem que estava de costas voltadas para nós. Aproximei-me e junto a ele estava um cão que me ignorou. O homem parecia uma estátua ou que estava num estado de transe que não consegui perceber bem. Falei-lhe. Boa tarde tio. Os seus olhos estavam vazios embora neles se visse o reflexo de uma água que não existia ali à frente. Talvez fossem as lágrimas contidas no seu olhar. Talvez fosse a chuva que se aproximava.

Suposições minhas. Tentei falar durante uns bons cinco minutos e nada. Desisti e voltei para o carro, dizendo aos meus companheiros de viagem o que sucedera e a minha incredulidade. Ninguém me acreditou. Disseram-me que o vinho tinha batido bem. Disseram que aguento pouca bebida.

Continuámos viagem pelo caminho que pareceu o melhor. Era o melhor. Uns quilómetros mais à frente, chegámos a um monte. Sentada no poial, uma velha senhora, com um gato ao lado e uma cesta de favas ao seu lado. Saí do carro e a cena repetiu-se. A mulher, mumificada e os olhos repletos de água que não caía.

O gato não se mexeu. A mulher claramente olhava para um qualquer lugar que não sei qual e via água, tanta água que enchia o seu olhar.

Ficámos apavorados e decidimos a grande velocidade sair dali. Havia algo de realismo mágico, algo de Pedro Páramo naquele lugar. Voltaríamos a Pias e a Lisboa, antes que também os nossos olhos se enchessem também eles em água e nos tornássemos em estátua.

Parámos em Pias e bebemos o dobro, ainda incrédulos. O que aconteceu? Talvez tenha sido o vinho! O resto não sei.

 

 

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