29 Abril 2016      18:26

Está aqui

ELE JÁ ESTÁ ENTRE NÓS

"MENOS ESTRANGEIRO"

Eu ontem assisti a um filme alemão chamado “Ele Está de Volta” (Er Ist Wieder Da), dirigido por David Wnendt. Trata-se de um exercício de imaginação fascinante e muito adequado aos dias que correm. Dias em que ideias e posturas de caráter fascista ganham novamente espaço nas cenas cultural e política europeias, norte-americanas e brasileiras.

O filme baseia-se num mote fantástico: o que aconteceria à Alemanha e aos seus habitantes, caso Adolf Hitler retornasse misteriosamente na Berlim de 2011? Seria ele levado a um tribunal, para responder pelos seus crimes de guerra? Seria finalmente confrontado com todo o horror que promoveu e que gerou um trauma terrível nas memórias das populações atingidas pela sua sanha dominadora? Provavelmente, nada disto ocorreria.

O que o filme sugere como desdobramento de sua repentina chegada ao tempo presente é, em simultâneo, assustador e coerente com a cultura das celebridades instantâneas a que já estamos bastante acostumados.

No desenrolar da estória, Hitler torna-se numa estrela da televisão e da internet. Aos poucos, o ditador nazi passa a influir na cultura alemã, na medida em que apresenta novamente ao público seus ideais xenófobos, a reboque dos seus projetos de salvação da Alemanha. Não demora até que Hitler seja novamente um importante formador da opinião pública, com sucesso nas vendas de sua imagem e de suas memórias, publicadas em livro e adaptadas ao cinema.

Peço desde já desculpas por antecipar tantos detalhes desta estória, mas é necessário esclarecer os desdobramentos da aparição do antigo ditador no filme. Numa das sequências finais, Hitler sai em carro aberto pelas ruas da capital alemã. Ele recebe maioritariamente cumprimentos de aprovação e de respeito, sendo poucos os homens e mulheres a lhe lançarem gestos de censura ou de rechaço. Detalhe: estas cenas são documentais, as pessoas que aparecem nelas são reais e foram apanhadas de surpresa, no que parece ser um dia absolutamente normal. O filme consegue, assim, nos fazer refletir sobre como nascem as ideias fascistas e, principalmente, quais são os agentes que as semeiam e cultivam.

Em termos muito gerais, pode-se dizer que as ideias fascistas encontram terreno fértil entre as pessoas mais pobres, notadamente entre aquelas mais vulneráveis aos colapsos financeiros e às suas consequências sociais. Via de regra, o cidadão e a cidadã das classes médias e baixas formam suas orientações políticas tendo em vista o seu bem-estar, numa estrutura social que os penaliza em privilégio dos mais ricos.

A relação dos cidadãos destes estratos sociais com a política tende a ser personalista, na medida em que exigem garantias que somente um contrato do tipo clientelar pode lhes assegurar. Obviamente, nem sempre estas garantias são cumpridas, contudo o pacto de confiança personalista opera nas subjetividades das pessoas sensações de acolhimento e de segurança, que fazem com que elas adiram ao projeto político que recebeu seu voto, ainda que este venha a significar o uso da força extrema contra populações inteiras, como foi o caso do nazismo.

O Hitler do filme argumenta a certa altura, em outras palavras: fui quem fui porque o povo assim o quis. Entretanto, convém questionar este axioma, uma vez que as vontades humanas são facilmente manobráveis, em especial em contextos econômicos mais difíceis.

O discurso fundamentalista é a arma preferencial dos aglomerados políticos radicais para o convencimento das populações. O seu veículo mais poderoso é a propaganda. Se aquele discurso, seja ele religioso ou nacionalista, aproveita-se de um sistema de comunicação social suficientemente sólido para o difundir, muito provavelmente ele encontrará assento na angústia e no medo das pessoas comuns. Aliás, ele tratará de insuflar estes dois sentimentos, de modo a preparar os espíritos para a mensagem messiânica que vem a seguir.

De repente, passamos a notar pessoas empobrecidas e confusas a exigirem à História que lhes traga um líder, sem se darem conta do que pode significar entregar as suas vidas em troca de um paternalismo que as infantiliza e as torna cegas. Ainda hoje ouvimos muitos amigos e amigas a repetirem este desejo por liderança, criando um vazio político e ideológico a ser preenchido por indivíduos ou instituições carismáticas e, muitas vezes, corruptas ao extremo.

Portanto, uma personagem histórica como Hitler não pertence apenas ao passado. “Ele Está de Volta” desenha uma metáfora sobre o surpreendente avanço de ideias fascistas entre parcelas cada vez maiores da população europeia e não só, num tempo em que acreditávamos ter conquistado mais autonomia, graças às novas tecnologias.

Para provar que o Hitler (ou o seu espectro) já nos assombra em pleno século 21, o filme termina com a contraposição das imagens do passeio do ditador em carro aberto a cenas reais das manifestações violentas de neonazis na Europa do Norte, bem como a falas de parlamentares de extrema direita, nesta surpreendente e temerosa ascensão de partidos e de políticos declaradamente fascistas.

Se Hitler já está entre nós, nas ruas ou nos parlamentos, o que podemos esperar do futuro, caso este fenômeno venha a ganhar força? Talvez devamos nos posicionar contra ele e esclarecer as populações dos perigos dos fundamentalismos. Ou seja, nossa guerra é contra a ignorância, porém, do outro lado desta trincheira simbólica, a alimentá-la com a espetacularização da violência, da superficialidade e do ódio, estão os grandes meios de comunicação de massa, a fazerem o trabalho de adubação para que as sementes nefastas do fascismo cresçam nos lares das famílias mais suscetíveis ao veneno da desigualdade social.

Seremos capazes de derrubar estes gigantes e de furar o bloqueio da propaganda, impondo narrativas históricas e políticas mais consistentes e benéficas? Conseguiremos evitar a multiplicação dos Hitleres? Não consigo adivinhar o futuro, ainda que por hora o imagine pintado a preto e branco. A julgar pelo conteúdo de “Ele Está de Volta”, penso que fomos capazes de dar dez passos à frente no último século, todavia agora começamos a recuar muitos mais passos atrás. Mais não digo.

 

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