29 Setembro 2019      06:42

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Ecologismo vs Ecologismo-Parolice

No rescaldo da Cimeira do Clima 2019 no quartel general da ONU em Nova Iorque (que mais serviu para encontros entre chefes de Estado no sentido de resolver questões da ordem mundial que pouco têm a ver com a agenda climática) e das ditas greves globais pelo clima que foram acontecendo nos últimos meses paulatinamente, há considerações a retirar.

Em primeiro lugar há que deixar claro que vivemos de facto num período de alterações climáticas evidentes, onde as estações do ano se descristalizaram, o que faz com que estas se entrelacem de forma muito pouco previsível ao longo do ano. Os fenómenos extremos multiplicaram-se e aumentaram de intensidade. A temperatura média da terra não pára de subir. Tudo factos, de certa forma, unânimes na opinião pública. Alegadamente grande parte dos cientistas afirma que a culpa é da acção humana e das suas emissões de carbono, uma pequena parte alega que não há responsabilidade da acção humana e que, alterações climáticas, sempre existiram de forma natural e cíclica, e fazem parte da dinâmica atmosférica da Terra. A título pessoal não desconsidero ambas as visões, assumindo até que se possa estar a dar uma combinação das duas, deixo essa discussão em aberto para os especialistas do tema.

No seguimento disto surge o problema da crença, essa faceta impossível de retirar do sistema límbico do ser humano. Os movimentos que acabam por resultar destas interpretações científicas acerca do clima geram, como seria de esperar, duas vagas antagónicas. A vaga dos piamente crédulos e a vaga dos piamente incrédulos, que defendem a sua retórica como se do Santo-Gral se tratasse, que não deve nunca ser contrariado ou questionado (como manda a boa da democracia… passo a ironia). Isto faz com que estes movimentos passem a ser seguidos de modo tribalista como religiões, com todos os prejuízos que daí advêm, especialmente para o racionalismo.

Com isto surgem as barricadas. E recentemente ergueram-se umas barricadas contra uma tal de Greta, e a favor de uma tal de Greta. Onde a barricada contra não compreende o cerne da mensagem que esta rapariga pretende passar, e a barricada a favor cai na parolice de achar que aquele método de expor um problema global não é pacóvio e não prejudica a causa, quando cria apenas mais disrupção e afastamento entre as partes tribalista e religiosamente antagónicas.

Outra grande questão a debater aqui é o próprio sequestro do Ecologismo pelos partidos da esquerda exagerada, e da mensagem anti-capitalista que estes pretendem transmitir, imputando ao capitalismo e à economia de mercado todas as culpas no que toca à responsabilidade pelas alterações climáticas, quando o problema ambiental não é um problema provocado por um modelo económico de sociedade, mas sim pela crise da racionalidade e da própria moralidade da sociedade humana. O que faz com que, imoralmente, uma falange política esteja a tentar tirar proveitos políticos de um flagelo mundial, no sentido de legitimar a implementação de um modelo de sociedade condizente com os seus modelos ideológicos.

É por isso que não vemos este género de ecologismo aburguesado de esquerda nos países que mais se sentem afectados pelas alterações climáticas como a Índia, Bangaldesh, Moçambique, Botsuana ou Nigéria por exemplo. Nestas regiões luta-se para tentar tirar milhares de milhões de pessoas da pobreza extrema, grunha e salafrária, na medida em que possam lidar da melhor forma possível com os prejuízos e perdas que estas alterações lhes criarão, em muitos casos, prejuízos que custarão milhares de vidas humanas como custaram em Moçambique com a passagem do ciclone Idai, ou na Índia com épocas de monções numa desmesura como não há memória.

Por isto mesmo, não é de todo possível alcançar um consenso global igualitário, há países que olham para o exemplo da China, que retirou da pobreza extrema milhões de chineses numa estratégia (capitalista) de longo prazo, arquitectada pelo presidente Deng Xiaoping, e aplicada ao longo de várias décadas. Estratégia essa que resultou, a China dispõe hoje de uma classe média sólida nas regiões costeiras que se expande gradualmente para o interior, ombreando economicamente com os Estados Unidos da América na economia global. Na esteira deste exemplo muitos outros países se inspiram e almejam seguir-lhes as pisadas, e estes sabem que, para tal, é necessário que haja uma economia de mercado livre, enérgica e dinâmica, acompanhada de políticas públicas potenciadoras de uma justa e o mais equitativa possível distribuição do rendimento.

Para estes países a prioridade é sair das armadilhas da miséria, da fome, da mortalidade infantil, da fácil propagação de doenças e epidemias, do trabalho infantil, etc. E aqui, todos acreditam que o caminho para alcançar este propósito é pela via do desenvolvimento económico capitalista semelhante ao método chinês, e será sempre essa a principal prioridade destes Estados menos desenvolvidos, que creem que também são merecedores de alcançar o nível de vida luxuoso que temos na Europa e na América. Pois, saberão que estarão melhor protegidos e preparados para enfrentar as consequências das mudanças climáticas se dispuserem de um mais saudável e digno nível de vida. Porque face a um furacão, uma monção ou uma seca, faz imensa diferença que uma casa seja de betão em vez de lata; que hajam hospitais, médicos e medicamentos de acesso rápido e acessível; que hajam estradas de alcatrão que reduzam tempos de viagem; que hajam investimentos públicos na construção de barragens; que hajam planos nacionais de vacinação eficientes e que haja segurança alimentar.

Face a todas estas prioridades não é possível haver consenso para uma agenda ecologista global, não obstante, tem de haver bom senso. O bom senso de entender que o nível de vida luxuoso do qual dispomos no mundo ocidental não caiu do céu nem de uma agenda anti-mercado, o bom senso de não negarmos aos países sub-desenvolvidos (através de sanções pró-ambiente) o mesmo direito a alcançar o nosso nível de vida pela via económica, o bom senso de entender que para salvar estes povos da emergência climática é necessário fazê-los sair da situação de pobreza, e o bom senso de entender que o ecologismo anti-capitalista cheira a esturro, e que por alguma razão este não tem expressão nos países que mais lutam contra este flagelo.

 

Imagem de capa de Carlo Allegri/Reuters

 

 

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