13 Outubro 2018      23:21

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Easy Rider

Easy Rider (1969), também sobre sonhos, a ascensão do realizador e o êxtase no horizonte do desencanto (i.e., o crepúsculo algures na fronteira do Texas com a Louisiana):

 

Acordar de um sonho é imperativo que se presta a muitos equívocos, mas também uma benesse, e convenhamos que não há assim tantas por aí. Como adormecer, o antecedente natural.

Verdade seja dita, não adormecemos com o propósito de sonhar. Adormecemos por duas razões, que se interconectam: cansaço e porque nos entregamos a uma expectativa, digamos, hábil que só um tolo confundiria com sonhar, enfrentar o dia seguinte no máximo da força, com toda a energia disponível após recuperação (daí a benesse, poucas coisas são mais salutares do que o descanso e a regeneração).

Sonhar implica um regime de excepção, que um ser desperto apenas pode simular. Nessa sequência, assim que foi possível, inventou-se o cinema – que, como se sabe, é o meio de simulação perfeito. Já antes, muito antes, outros haviam forjado os ‘mecanismos da ficção’. O cinema era o passo que faltava. Um primeiro problema: por razões facilmente entendíveis, desde muito cedo o cinema foi associado a uma suposta Idade das Luzes, de progresso imparável, o que criou na mente, quer do criador (produtor é a expressão que, então, melhor se lhe adequava), quer do homem comum, a necessidade do happy-end. Cinema como sinónimo de entretenimento, no sentido mais rígido do termo, i.e., para massas que não podiam nem deviam ser indispostas.

É quando aparece a figura do realizador, a figura que haveria de substituir o produtor como o…verdadeiro criador, para, enfim, libertar o cinema da prisão do final feliz. Não era, não foi tarefa fácil, o produtor perdera espaço, mas não necessariamente o poder de intervir, pois este colara-se ao capital, definitivamente na sua posse, num domínio dependente de elevado investimento. Avanços e recuos foram-se sucedendo até aos dias de hoje.

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Sonhos, cinema, simulação. Como o realizador soltou o cinema da exclusividade do entretenimento superficial, da queda no abismo da frivolidade.

Com o realizador, o gozo pelo risco, a revelação da metodologia do desencanto perfeitamente concebida e de uma vez por todas ancorada na personalização (no que o carácter tem de singular). A literatura como farol, a fotografia e o teatro como previsíveis e necessárias desculpas, ou seja, a criação de uma nova arte sob os olhos sedentos de alguns, os que mais importam (assim nos permitam o atrevimento). Para os que não acreditam na salvação divina, por fim o ansiado resgate.

Como sempre, toda a ideia procura refúgio num ponto específico, a verdade não se torna mais verdade, mas o 2*sapiens precisa de conforto, nada de novo, e neste caso o refúgio é o filme-matriz da ascensão do realizador, o exemplo indispensável em qualquer discussão. E, sim, há um sobre todos os outros. Filme espertalhaço, feito com muito pouco dinheiro. A independência do realizador não advém da nobreza de carácter ou da força da ideia (outras combinações também se aceitam), vem da disponibilidade financeira. Quanto menor o investimento, menor a interferência do produtor; e certos filmes, mais do que outros, são pensados para serem feitos livremente. O filme: Easy Rider, concebido por Peter Fonda e Dennis Hopper, e dirigido por este, em 1969, nem sempre nas melhores condições, tangíveis e intangíveis; como, de resto, se tornou apanágio do bom e rebelde Dennis H, devoto de um estilo de vida…excessivo.  

Easy Rider é a aventura sonhada de Billy (o mundano) e Captain America (o timoneiro) pelo sul dos Estados Unidos. Dois espíritos-livres, duas Harleys, um trajecto > todavia, e não sem ironia, a desembocar num destino, a meta no fim do caminho – local mágico que os espera de braços abertos (a validação do percurso).

Filme de superfluidade, da metáfora pela metáfora, metáfora sobre metáfora, filme que ilumina excessivamente - uma das suas maiores conquistas, que  fique claro. Simbologia e concretização em perfeito sincronismo. Constrói-se, portanto, no óbvio, tudo fica claro, e não demora muito, pelo produto de caminhos conexos. E como? A) Drogas; B) liberdade dos protagonistas em paralelo com as paisagens – e depois o contraponto com a outra gente, habitem ou não nesses espaços; C) Viagem (letra grande), i.e., viagem para um lugar que se materialize na plena expectativa, em suma, o El Dorado.

Os espaços abertos sempre se integraram bem no espaço fílmico… Tal como a música – e este foi o filme em que a rock song chegou em força ao grande ecrã, no final da década da sua afirmação. Descobri-lo é um prazer físico, permanecer sentado a grande dificuldade (pela inquietude, a dança não é para aqui chamada).

É mais. O prazer faz parte do jogo, mas, já o referimos, não é tudo. Se é cinema, é logicamente devolução, vemos acontecer e como bons espectadores fazemos questão de saber tudo. A obrigação do filme de realizador é, então, fazer-nos saber o que temos de saber, independentemente das consequências, não passar a mão pelo ombro carente de emoções delicodoces. Quem teme o isolamento do desencanto, da perda, cedo perde o interesse, mas quanto a isso nada há a fazer. Não é simplesmente mais: é tudo!

Easy Rider começa por invocar a liberdade apenas para revelar que esta é, a partir de certo ponto, inacessível. A liberdade é sonho antes de ser conceito, sendo que a partir desse instante não deixa de ser conceito (e enquanto sonho e conceito pode ser vista como total, absoluta), não passa à prática. O sonho acordado não se cumpre, sonha-se. A delícia do não-atingível, a emoção sublime perante o que nos transcende; provavelmente, religião à parte (toda a hipótese evolutiva prevê uma ruptura, uma perturbação viral), a maior criação do ser humano.

Sim, eles chegam ao destino almejado e fazem o que se propuseram. Quando regressam, o mundano rejubila, “sim, conseguimos – conseguimos, meu!”; responde o timoneiro, “não Billy, estragámos tudo…”. Pois foi, por conseguinte, resta-lhes pagar o preço por tão nobre falhanço.  

 

Imagem de sabotagetimes.com

 

 

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