1 Julho 2016      13:10

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DISSE QUE DISSE

"MENOS ESTRANGEIRO"

Esta semana, um jornal online divulgou uma suposta declaração do ministro alemão Wolfgang Schäuble, segundo a qual Portugal necessitaria em breve de um novo resgate financeiro. Depois desta publicação, a imprensa portuguesa, bem como líderes políticos e analistas, lançaram-se numa espiral confusa de ataques e retaliações advindos de setores contrários ou favoráveis ao atual governo liderado pelo PS de António Costa.

 

Horas mais tarde, mais confusão: segundo o mesmo veículo de imprensa, Schäuble teria voltado atrás na sua declaração, sem que esta sua segunda fala entretanto sequer se configurasse num desmentido. O governo português em funções, que tem tido a necessidade constante de defender sua plataforma económica, manteve-se sob escrutínio. Terá sido por coincidência que, no dia seguinte à presumível declaração do alemão, o jornal Público trouxe páginas e páginas preenchidas com uma entrevista ao ministro das finanças português, Mario Centeno, na qual este assume existir um cenário menos otimista na economia portuguesa, em 2016?

 

Provavelmente, esta reportagem do Público já estivesse agendada com antecedência, porém, dadas as supostas afirmações de Schäuble, o seu conteúdo ganhou interesse e repercussão imprevistos. Se houve ou não o tal alerta do ministro alemão, pouco importa, afinal, a informação já havia se tornado numa preocupação generalizada sobre os rumos de Portugal. Ademais, a falta de uma confirmação ou de um desmentido faz com que os efeitos da primeira notícia perdurem frente a uma opinião pública assoberbada com a ação coordenada da imprensa, que parece atuar no sentido da criação de sobressaltos e de desconfianças junto aos cidadãos/eleitores.

 

Este caso é interessante para pensarmos na associação hoje inegável entre os setores financeiros e mediáticos. Reflitamos: o que você faria, caso seu nome fosse envolvido num disse que disse capaz de insuflar disputas políticas num país estrangeiro? Poderia o leitor e a leitora apressarem-se a afirmar que, imediatamente, lançariam um comunicado público a dar conta da verdade. Porém, não é bem assim que as coisas vêm funcionando no que toca à União Europeia dos dias atuais. Pelo contrário: em meio ao furação informativo, nem verdade, nem mentira, mas boataria.

 

Boatos têm sido utilizados como genuínas armas políticas, desde que o neoliberalismo passou a representar uma ameaça aos direitos sociais e individuais, ao invés de uma promessa de prosperidade. Se, antes, era possível arregimentar seguidores com discursos de eficiência na gestão pública através de um Estado diminuto, atualmente, por toda a Europa e não só, crescem reivindicações a favor da revitalização do Estado Social. Em resposta à insatisfação generalizada, setores que detêm prerrogativas de facilitar a concretização de direitos basilares, nomeadamente, o direito à informação e à participação na vida econômica, rearticularam-se de maneira absolutamente flagrante.

 

Não que estes setores já não estivessem ligados, é que agora a sua irmandade já não se esconde aos olhos do público. Cada vez mais se torna fácil identificar os segmentos industriais e rentistas por trás dos veículos de comunicação social, como se as televisões, as estações de rádio e os jornais funcionassem como assessores dos poderosos, chamemo-los assim. Esta associação determina modos de perceber e de participar da vida social sempre consoantes com a agenda estabelecida pelas grandes corporações rentistas, disseminada em artigos noticiosos e de opinião que pululam em diferentes meios.

 

Sem mais condições de apresentarem promessas, resta-lhes como alternativa de convencimento a divulgação de narrativas cuja sustentabilidade não mais se dá pelo contraditório, mas pela incessante veiculação de argumentos que, antes de serem fatos, são, muitas vezes, conjeturas cujas veracidades costumam desaparecer à medida em que o tempo passa.

 

Esvaneceu a fronteira entre a notícia, este bem fundamental para o controle social, e o boato. Uma matéria jornalística que venha a deflagrar uma meia-verdade causa um impacto que alimenta uma onda crescente de desconfiança nas instituições políticas. Fundamentalmente, esta estratégia de jogar lenha na fogueira pretende sobretudo intimidar a opinião pública. Intenta-se incutir na mentalidade dos cidadãos a ideia nefasta de que não há alternativas diferentes daquelas defendidas pelos poderosos. Este modo de criar reações favoráveis ou adversas aos grupos políticos, consoantes com as suas vertentes ideológicas, vem dominando parte importante do jornalismo, em escala global.

 

Portanto, meu caro e minha cara, fôssemos nós o Schauble não jogaríamos areia sobre o braseiro, uma vez que o braseiro seríamos nós mesmos. Faço-me entender? Explico-me melhor: nos tempos que correm, já não importa a verdade, mas a dúvida, esta mãe do medo, irmã da ignorância e tia deste número assustador de movimentos radicais que, acuados pela incerteza e pela falta de oportunidades, tendem a desestabilizar de uma vez por todas a Europa e, com isto, gerar um caos muito lucrativo.

 

Eu não duvidaria que fosse este o objetivo final do Schauble: gerar pânico e desestabilização social e lucrar com isto. Ainda que, até aqui, eu só tenha tentado criar com este texto uma onda de boataria em sentido contrário à que este iminente político alemão criou e que alcançou Portugal em cheio. Pobre de mim ao tentar fazer tal coisa. Eu, que sequer possuo um canalzinho de televisão para fazer algum barulho, conseguirei, no máximo, ouvir de longe os risos sarcásticos e desconfiados do leitor e da leitora, após finalizarem as suas gentis passadas d’olhos neste texto que provavelmente não conhecerá um desmentido de minha parte.

 

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