29 Novembro 2019      08:45

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Destruição de património arqueológico no Alqueva não inviabiliza o seu potencial turístico

Destruição de património arqueológico no Alqueva não inviabiliza o seu potencial turístico, sugere novo estudo científico feito no Reino Unido.

Um estudo recente analisou de que forma os agentes de turismo cultural podem fazer uso da memória de património arqueológico que foi destruído durante a construção da barragem do Alqueva.

David Ross, autor do estudo de doutoramento realizado na Universidade de Hull (Reino Unido), escolheu a região do Alentejo como caso de estudo devido à riqueza arqueológica da região e a extensão dos impactes da barragem do Alqueva no património local. Se por um lado a construção da obra resultou na destruição de inúmeros sítios de património cultural e arqueológico, por outro lado o programa de intervenções de arqueologia preventiva durante os estudos de impacte ambiental gerou uma quantidade considerável de conhecimento científico sobre o passado da região. Neste contexto, partindo de um desafio lançado pelo arqueólogo António Valera, da ERA Arqueologia, o projecto investigou possibilidades de se fazer turismo arqueológico sem necessidade de visitar presencialmente sítios arqueológicos. A investigação baseou-se em trabalho de campo no Alentejo e envolveu várias entrevistas com operadores turísticos, organizações não-governamentais e instituições públicas locais e regionais com ligação ao sector do turismo e do património.

Os resultados sugerem que, embora a destruição de um sítio arqueológico impossibilite o acesso ao mesmo, os eventos que levam ao seu desaparecimento formam novas narrativas que têm potencial turístico. Em alguns casos, o processo de destruição torna-se o ponto central da narrativa e estimula a imaginação criativa tanto de turistas como também de guias. Um caso concreto é o Castelo de Lousa, em Mourão, que apesar de ter sido totalmente submerso pelo lago do Alqueva ainda suscita interesse turístico evocando a sua perda e não tanto pela importância histórica do monumento. Outro exemplo é o Cromeleque do Xerez, perto de Monsaraz, que foi movido da sua localização original para um terreno fora do alcance das águas de Alqueva. Apesar de ter perdido o seu contexto original, o sítio continua a atrair turistas interessados na história de como foi o único monumento de grandes dimensões a ser movido como resultado da construção da barragem. Do ponto de vista turístico, estes aspectos de perda transformam o valor dos monumentos, adicionando novas camadas à sua história em vez de a apagar.

A valorização destes monumentos desaparecidos pode ser feita através de visitas guiadas enriquecidas ao incluir estórias contemporâneas sobre a destruição de monumentos arqueológicos que ilustram a interacção entre o ser humano e o território. Instalações artísticas inspiradas nos monumentos ou actividades temáticas de arqueologia experimental com foco em artesanato ou gastronomia também celebram o conhecimento arqueológico local sem necessidade de recorrer ao monumento propriamente dito. Passeios de barco no reservatório da Alqueva fazem referência ao património submerso, capitalizando a ideia de que o lago não é um lago qualquer, mas um lago que esconde “tesouros”, locais e monumentos antigos.

Estas experiências criativas não substituem formas tradicionais de turismo arqueológico, mas podem contribuir para a diversificação da oferta turística existente. Para que tal aconteça, o autor do estudo sugere a criação de programas de capacitação para estimular inovação e criatividade no sector turístico e promover maior circulação do conhecimento arqueológico entre agentes do sector turístico, do sector cultural, de obras públicas e de arqueologia comercial. É igualmente necessário discutir a ideia de que o valor turístico do património não se limita à sua dimensão material. Embora a salvaguarda de património histórico deva ser prioritária sempre que possível, o reconhecimento de que em muitos casos a sua destruição é inevitável realça a necessidade de preservar a memória e os valores que permanecem após a perda material. Esta ideia torna-se premente dado o crescimento que se tem verificado nos últimos anos em obras públicas e infraestruturas, nomeadamente as novas barragens projectadas no Plano Nacional de Barragens ou as intervenções arqueológicas a decorrer em larga escala em Lisboa, e que apresentam situações de risco para o património local.

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