23 Dezembro 2018      12:45

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Deste Lado da Ressurreição

Deste Lado da Ressurreição (um filme instável e potencialmente falhado (dito como elogio) de Joaquim Sapinho):

O título é enigmático e predispõe ao sorriso expectante. Também pelos vestígios do (ainda assim não muito) que se leu sobre o assunto. Começa – e começa bem. O contraponto de silêncios entre o interior / entrada do cenóbio e as sequências de surf. Silêncios? Expressão talvez equívoca. Interiores, representações de fé, céu, mar, debaixo de água, depois um grito que naquele ponto já sabe a pouco. As imagens são, de igual modo, dispares, ou de grande ou de recôndita beleza.

Voltemos ao grito, pois com ele vem a história, melhor, a possibilidade de uma história. Uma família, que outrora presumimos feliz (mas quando?), agora desencontrada no que tal expressão tem de mais brutal: Pai que havemos de saber morto, filho desaparecido, mãe chorosa e filha adolescente à beira de uma qualquer perdição que só ela entende. O filho regressa e surfa. A irmã, que entretanto o sabe no Guincho. Ela que o julgava (pela voz da mãe) na Austrália e afinal se encontrava tão perto, retirado num mosteiro próximo – ao qual regressará a páginas tantas, depois do breve retorno à religião primária, o surf. Tão longe, portanto, quanto podem estar uns dos outros nesta Terra ou noutro lugar, ou mesmo de si próprios.

Segue devagar (não confundir com lentidão) e os diálogos são apenas utilitários. As imagens, como antes referido, são muito belas, o som nem por isso, muito do que se ouve perde-se (menos o som mar). É propositado? Assim parece.

Dos que estão vivos, dois, os filhos, ainda buscam, ao contrário da mãe que se resignou. A irmã busca o irmão, e o irmão, o pai. A morte do pai permanece um mistério que aqueles que o conhecem preferem evitar. Para o espectador esse mistério é a pedra de toque, o mais próximo que vamos ter de um sentido; remete, como hipótese minimamente congruente, para uma culpa alheia que justifica o restante que vemos acontecer; é o elemento que pode agregar - elemento no limite, de resto, pois sem ele não há filme, e com ele por pouco não há espectador. O comboio a páginas tantas parece propositadamente desgovernado. Aceitemo-lo.

Será este um filme sobre a grande desilusão? A consciência tardia da fronteira da infância? Arriscaremos nessa direcção. Ora vejamos: Um jovem a quem morreu o pai deseja ardentemente um milagre, esse mesmo: a ressurreição. Não esquecer a conjecturada culpa, sim, mas também não esgotar tudo nessa, ainda assim, incerteza. Enfim, luta arduamente, contra as ondas (o símbolo paterno por excelência, este era um ex-surfista que deixou uma forte marca), contra si próprio (o retiro tem tanto de rogativa como de acto de imolação), contra uma morte que parece (não tão estranha ou contraditoriamente) também ansiar, contra o cepticismo (daí a saída do mosteiro) para além do desejo do milagre.

[Desejo esse que, é devido o esclarecimento, por esses momentos do filme não se chega a perder, e daí o segundo retiro, que na verdade é o terceiro - uma das religiões ao menos não tem memória íntima nem significância terrena, e por isso continua a permitir o milagre.]

O milagre não acontece, por várias razões intrínsecas e extrínsecas o pai tem de permanecer morto. É quando o título deixa de ser misterioso. Quando o lado se mostra pelo único olhar que lhe resta, o de cá. Claro que parece limbo. Um limbo como se um eu em confrontação com uma pluralidade de hipóteses, sendo que todas com chão. E depois a percepção desse chão. Se quisermos, a percepção de um real para cá da morte.

E existe conforto possível? Talvez no sonho, que sabe sempre que é sonho. O milagre só existe como tal desde que não se acredite totalmente nele. É essa a lição que no fim acreditamos o filho ter aprendido, mas não chegaremos a saber se lhe serviu para alguma coisa.

 

Imagem de apaladewalsh.com

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