2 Outubro 2019      16:24

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A democracia portuguesa cresceu

Portugal será talvez o único país da Europa que mantém os mesmos partidos com representação parlamentar há 45 anos. Deixemos passar a exceção do Bloco de Esquerda, que ganhou representação ao juntar forças que vinham do período pós-revolução, e do PAN, que, por enquanto, se insere no grupo dos que ao longo destes 45 anos têm tentado, sempre sem sucesso duradouro, ganhar voz. Uns dirão que mostra estabilidade. Eu acredito que tenha mais a ver com estagnação e imobilismo. Os portugueses são tendencialmente avessos à mudança, e isso prejudica-nos. A Europa arrisca, comete erros, mas evolui. Nós menos. Vamos evoluindo mais a reboque do que por vontade própria.

Façamos o exercício de analisar a representação parlamentar portuguesa em comparação com a europeia no mesmo momento.

Em Portugal, Bloco de Esquerda e PCP/PEV têm neste momento 16% dos deputados da Assembleia da República. No Parlamento Europeu, o equivalente GUE/NGL tem 5%. Um terço.

O PS conquistou 38% dos assentos. O equivalente europeu S&D conquistou 21%. “Grosso modo”, metade.

O PSD e o CDS têm em conjunto 46% de representação parlamentar. Na União Europeia, o EPP tem 24%. Metade.

O que a análise objetiva destes números nos diz é que os 100% ocupados pelos partidos que nos representam há 45 anos (o PAN não chega a 1%) refletem apenas 50% da representação escolhida pelos europeus. Põe-se a pergunta: onde está o que nos falta? Essencialmente, em quatro partidos que por algum motivo ainda decidimos não escolher.

Os Greens/EFA são representados em Portugal pelo PAN e pelo Livre. O PAN é a primeira voz verdadeiramente verde e ambientalista no Parlamento português. Faz a falta que atribuirmos a este tema para o desenvolvimento e para o bem-estar da sociedade. Na Europa, é uma presença histórica. E o Livre é a esquerda europeísta, em oposição à esquerda eurocética do Bloco e do PC.

O Renew Europe tem em Portugal espelho nos liberais da Iniciativa Liberal e nos social-liberais do Aliança. Dois partidos recém-criados, liberais na economia e nos costumes, que propõem uma ideologia política nova para os portugueses, algo que nunca experimentámos e que pouco conhecemos. No Parlamento Europeu ocupam 14% dos assentos e são o terceiro maior grupo parlamentar. A bem do pluralismo, seria interessante tê-los representados. No mínimo, devemos conhecê-los antes de os odiarmos.

Portugal tem ainda dois partidos que alguns consideram populistas, mas que eu prefiro considerar de nicho anti-corrupção: o Nós, Cidadãos e o PDR. Faz sempre falta alguém que diga que “o rei vai nu”. Essa pode ser a função destes dois partidos.

A Europa tem por último o ECR e o ID, que são uma mistura de ultraliberais, eurocéticos, nacionalistas e populistas de extrema-direita. O equivalente aos nossos PNR e Chega. Têm 18% dos lugares e se se juntassem representariam a terceira força parlamentar. Aqui tenho obviamente que me desviar do sentido desta partilha para depositar a minha esperança de que os portugueses continuem a saber rejeitar estas propostas, baseadas essencialmente no ódio e no egoísmo.

Termino, desejando que saibamos escolher sem medo da novidade e da mudança quem queremos que escreva connosco o futuro do nosso país.

 

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