26 Agosto 2018      20:39

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Dário Zabumba, o eborense vice-campeão europeu de micro-satélites

Dário Zabumba, professor, 36 anos é natural de Évora. Licenciado em Física e Química pela Universidade de Évora e mestre em Análise Química Ambiental pela mesma instituição. leciona no Colégio Guadalupe no concelho do Seixal desde 2012 e foi recentemente o líder de uma equipa que se sagrou vice-campeã europeia de CanSat como o Tribuna Alentejo noticiou então, um projeto educativo da Agência Espacial Europeia que ocorre a nível europeu para alunos do ensino secundário. O desafio do CanSat é construir um modelo funcional de um micro-satélite onde os sistemas base (antena, bateria e sensores) não podem ultrapassar o volume de uma vulgar lata de refrigerante. Aproveitámos a oportunidade que nos deu para uma conversa e é precisamente essa conversa que queremos partilhar com os nossos leitores.

Tribuna Alentejo: Uma medalha de prata arrebatada numa competição extremamente exigente. De onde vem essa vontade?

Dário Zabumba: O CanSat começou na Europa, promovido pela Agência Espacial Europeia, no ano letivo 2009-10 mas, em Portugal a nível nacional teve início um pouco mais tarde, no ano letivo 2013-14. Desde a primeira edição que o Colégio Guadalupe, instituição de ensino privado onde me encontro a lecionar desde 2012, por minha iniciativa, participa no CanSat. Nessa primeira edição obtivemos, inesperadamente, o segundo lugar a nível nacional. Desde então a competição evoluiu imenso, tendo aparecido equipas a nível nacional com projetos incríveis, que já trouxeram para Portugal, há dois anos atrás, a medalha de ouro a nível Europeu e, este ano, a medalha de Prata, pelas mãos da nossa equipa, a GSat.

Enquanto professor de Física e de Química, uma ciência muito experimental, a vontade de experimentar “novos mundos” está-me no sangue. Aliado a uma variada experiência no mundo da computação, informática e inteligência artificial, existe também o gosto pelo espaço, pela eletrónica e pela propulsão, que foram “motores” para arriscar neste projeto. No início foi um pouco assustador, pois o CanSat é um projeto muito extenso no tempo e que envolve imensas áreas do saber. Os alunos são instigados a desenvolver competências em áreas completamente à margem do currículo nacional do curso de Ciências e Tecnologias, origem dos alunos na equipa GSat, como por exemplo eletrónica, programação, soldadura, aerodinâmica, sistemas de retenção (paraquedas ou outros) e ainda se especializarem na área de intervenção da sua missão científica. Foi um enorme desafio quer para os alunos quer para mim mas que no fim do processo é totalmente recompensado.

Tribuna Alentejo: Uma missão destas há-de precisar de apoios. Tem podido contar com eles?

Dário Zabumba: Ao longo do processo os apoios são fundamentais. Um projeto desta envergadura precisa de uma série de recursos que não existem nos estabelecimentos de ensino secundário, como é o caso de impressoras de placas de circuitos eletrónicos, ou analisadores de espetro para calibrar as antenas. Este ano contámos com o apoio de um grande número de instituições, que acreditaram no nosso projeto e que nos acompanharam ao longo do processo. Nuns casos obtivemos apoio técnico e noutros apoio com material que precisámos para o projeto. Entre estes apoios estão o do Instituto Politécnico de Setúbal, da Quantico Solutions e da botnroll.com numa parte mais técnica. A botnroll.com também nos ofereceu uma Raspberry Pi para a nossa antena. 

Além destes, contámos ainda com o apoio da nobrinde.pt, que nos ofereceu todo o equipamento, a Guimocircuito, a Edisoft que imprimiu todas as placas de circuito que utilizámos no nosso projeto e que nos pagou as viagens para os Açores. A BeeVeryCreative.com ofereceu todo o filamento para a nossa impressora 3D, que também é desta marca, totalmente portuguesa. Não nos podemos esquecer, claro, do apoio incondicional da administração do Colégio Guadalupe, que nos apoiou sempre e nos possibilitou a aquisição de todo o restante material que fomos precisando ao longo do processo. A todos estes apoios aproveito para agradecer uma vez mais aqui publicamente.

Tribuna Alentejo: Que vantagens existem para os alunos que participam neste tipo de projetos? E há algo que aqueles que não podem participar possam retirar desta experiência?

Dário Zabumba: Este tipo de projeto desenvolve nos alunos uma série de competências que não se adquirem dentro de uma sala de aula convencional, quer no campo das hard skills quer no campo das soft skills, muito devido ao facto de abordarem assuntos muito desviados do que se trata no currículo nacional das ciências e de instigarem ao trabalho de projeto em equipa. Os alunos garantem ao longo do processo aprendizagens que lhes vão ser muito úteis no futuro, até porque desenvolvem uma série de soft skils como o trabalho em equipa, liderança, gestão de tempo entre muitas outras.

Os alunos que não participam diretamente nestas competições são também influenciados, uma vez que nós procuramos sempre divulgar os nossos projetos, as nossas ideias e os nossos resultados. Muitas vezes até acabamos por envolver elementos exteriores ao projeto (alunos) na procura de soluções para problemas que vamos encontrando. Projetos com esta tipologia são cada vez mais precisos nos ambientes escolares.

Tribuna Alentejo: Se pudesse mudar uma só coisa no ensino da ciência em Portugal, o que seria?

Dário Zabumba: O ensino em Portugal ainda está sujeito a um currículo muito denso e restritivo. A ciência é uma área que, apesar de ter uma componente laboratorial associada no currículo nacional, é predominantemente teórica, possibilitando aos alunos um contacto diminuto com o método experimental. Se pudesse mudar uma coisa no ensino da ciência em Portugal, penso que seria a inclusão de mais trabalhos de campo, relacionados com a especificidade de cada região, que levasse os alunos a compreender melhor o meio que os rodeia.

Tribuna Alentejo: E agora? O que vai acontecer a seguir?

Dário Zabumba: Para já pretendo continuar a lecionar e a estimular os meus alunos para a Ciência. Estou neste momento a preparar uma visita de estudo ao maior laboratório de Física do planeta, em Genebra, para visitar o acelerador de partículas do CERN, que até já foi tema num filme de Hollywood. Pretendo no próximo ano letivo envolver mais alunos nesta competição e experimentar uma outra, também sob a tutela da ESA, designada AstroPi.

 

 

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