25 Maio 2020      16:06

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Crónicas de um médico italiano em tempos de pandemia: Qualquer um teria feito o mesmo que eu fiz

Nem sempre é fácil lidar com todas as tarefas que a existência exige de nós. Trabalhar regularmente, tentar ser um pouco alegre - como podemos nesses tempos estranhos - tentar escrever algumas linhas num idioma que não é o meu e, além disso, lidar com um hóspede inteligente, sábio e bem-informado como o que tenho em casa. Na verdade, não sei como chamá-lo se não for um hóspede; já quanto a ser bem-informado, não tenho dúvidas.

Espelho - Boa noite. Não te vi esta manhã.

Eu - Não estive em casa. Dia de folga.

Espelho - Pareces feliz. Nos olhos que Deus te deu vejo astros e céus, luzes de foguetes rosa e carmim e rodas na festa da aldeia.

Eu - Devo admitir que és veloz a atravessar os meus circuitos de pensamento.

Espelho - Porque usamos os mesmos circuitos. Como ainda não compreendeste isso? Tu achas que não me lembro de uma música que ouvimos dezenas de vezes, eu deste lado e tu desse lado de uma camada tão fina de dióxido de silício? Basta referires o nome da música e não preciso de mais: aquela mulher a cantar materializa-se entre nós os dois.

Eu - Durante o concerto em Évora, no verão passado, fiquei totalmente encantado com aquela voz mágica.

Espelho - “ Ouvindo-a sou quem seria, se desejar fosse ser. Sou uma emoção estrangeira, um erro de sonho ido” - Se quiseres podes cantar outra das tuas mulheres favoritas. Eu vi-te naquela noite, estavas realmente empolgado e, ao mesmo tempo, ausente.

Eu - A Manu ficou com ciúmes. Não me dirigiu uma palavra até ao dia seguinte.

Espelho - Não digas isso. Na verdade foste tu quem não falou muito com ela nessa noite: estavas distraído. Na minha opinião, ela estava então a jogar um jogo: "num palco sem tábuas ela mimava uma dança de mágoas para que nada sucedesse".  

Eu - Mas ela não estava vestida de papel seda.

Espelho - O que é essa marca que tens no braço?

Eu- Fiz o teste sorológico para o Co-Vid 19.

Espelho- Foste obrigado?

Eu - Não. A possibilidade foi oferecida a todos os médicos e enfermeiros que desejassem fazê-lo.

Espelho - E que resultado tiveste?

Eu: Negativo. Nunca fui infectado.

Espelho - Isso era verdade até ontem quando fizeste o teste. Bem, agora que sabes disso, o que muda na tua vida?

Eu - Nada muda na minha vida.

Espelho - Ainda não aprendeste sequer o que ensinas a teus alunos nos cursos que dás: deves fazer perguntas apenas se souberes usar as respostas.

Eu - Tenho que admitir que saí batendo com a porta. Isso raramente acontece, mas qualquer um teria feito o mesmo que eu fiz.

Gostaria de agradecer a Ana Moura, Marisa dos Reis Nunes (Mariza) e Susana Maria Alfonso de Aguiar (Misia) por terem inspirado esta conversa.

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Giuseppe Steffenino, é médico cardiologista no noroeste da Itália e está ligado a nós pela admiração que tem a Portugal e porque, com a sua companheira, Manuela Dalbesio, enfermeira, foram salvos de afogamento por nadadores-salvadores numa praia alentejana o ano passado. Quiseram encontrar mais tarde os heróis que os salvaram e deram por acaso com o nosso jornal. Temos mantido conversas desde então e sabido como os italianos estão a viver este momento avassalador da pandemia do covid-19, contados por quem está na linha da frente, que partilharemos com os leitores.

Para contactar o autor pode usar-se o gsteffenino@hotmail.it

Nota do editor: A tradução dos textos é da responsabilidade do Tribuna Alentejo.

 

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