2 Junho 2020      13:53

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Sim, isto é, não. O jantar não foi bom - Crónicas de um médico italiano em tempos de pandemia

 

Espelho: Vejo que estás muito bem hoje de manhã

Eu: Obrigado.

Espelho: Nitidamente o jantar com salada, tomate, pepino, fruta fez-te bem.

Eu: Sim, foi um bom jantar. Mas o que vais me dizer, isómero de má sorte? Quando começas assim, é porque queres estragar o meu dia.

Espelho: Mas não! Eu estava simplesmente a indagar como te sentes, quando comes frutas e legumes.

Eu: Faz-te entender ou cala a boca!

Espelho: sabes de onde vêm as frutas e os vegetais que comes, quem os cultiva e os colhe, e quanto custam a quem os cultiva?

Eu: Ouve-me: não tenho horta, portanto tenho que comprar comida. Eu não posso conhecer toda a historia por trás de cada tomate, pepino e ou rabanete.

Espelho: Surpreendes-me, porque pensei que eras uma pessoa inteligente, atenta, democrática e até de esquerda. Os que estão por detrás de cada legume que comes são escravos, quase todos imigrantes ilegais ou que se tornaram ilegais após os decretos do ex-ministro Salvini.

Eu: E esses decretos de que falas não foram anulados pelo governo atual?

Espelho: Enganas-te. Nunca foram anulados. E aqueles escravos recebem alguns euros por cada dia de trabalho. Seguindo as atuais restrições à circulação de pessoas, os traficantes de trabalho ilegal imaginaram algo brilhante. Eles obrigam os escravos a dormirem diretamente nos campos onde trabalham, dentro dos barracos de papelão, evitando todos os problemas com os controles de viagens e estradas. Assim, os escravos, sem perder tempo, podem continuar colhendo tomates, pepinos, melão e morangos a um preço baixo, que são bons para tua saúde e para a tua carteira.

Eu: E a polícia, os carabinieri, os inspetores do trabalho não fazem nada?

Espelho: Sim, isto é, não. De vez em quando fazem uma "blitz", uma ou outra detenção. Mas tudo continua na mesma. E toda a gente sabe disso. Na Itália, o sindicato da CGIL estima que existam mais de 300.000 trabalhadores agrícolas irregulares, a trabalhar nessas condições. E não é um problema limitado às regiões do sul.

Eu: Este é outro dos mistérios de nossa amada República Italiana.

Espelho: Como sobre o avião abatido sobre Ustica e a bomba na estação  de Bolonha en 1980: tudo é conhecido, mas nada é conhecido. Temos leis eficazes contra a exploração de trabalhos agrícolas irregulares, que prevêem penalizações severas. As favelas, os escravos, estão à vista de todos nos campos, não estão escondidos nas minas. No entanto, tudo continua na mesma.

Eu: Nada realmente mudou nos últimos anos?

Espelho: Lê o que Yvan Sagnet escreveu em 2015. Nada mudou. A máfia tem responsabilidades, mas é um parasita - não a causa - deste problema. A exploração dos trabalhadores agrícolas é produzida e alimentada por empresas e por um sistema internacional dominado pelo poder da grande rede de distribuição de produtos.  Agora, o Papa diz: "a crise é uma oportunidade para restaurar a dignidade dos trabalhadores agrícolas, incluindo muitos migrantes, explorados no campo". O ministro da Agricultura: "se não regularizarmos esses trabalhadores, renunciarei".  Mas no fim nada será feito. Soberanistas e populistas se opõem: “primeiro os italianos”. Mas os italianos que recebem o subsídio de cidadania não querem ir colher tomates, pepinos e feijões verdes . Os franceses tentaram fazer isso, mas não deu certo.

Eu: Falas sobre parasitas: o vírus Covid prejudicou essas pessoas? Considerando as condições em que trabalham e vivem, uma infecção eventual não seria controlável.

Espelho: Não sabemos, porque essas pessoas não existem. Quem não existe não tem direitos e não pode ser objeto de conhecimento. E ninguém se importa em saber.  Não estamos em Portugal! Nesse país, em março, o governo regularizou os imigrantes com uma autorização de residência ou pedido de asilo, para dar a todos acesso a serviços sociais e cuidados de saúde.

Eu: Mas naquele país, quem colhe frutas e verduras e quem cultiva os campos recebe um salário justo? Pergunto isso porque, quando eu viajei para Portugal, vi mesmo ofertas de frutas e legumes a preços muito baixos nos vários Pingo Doce, Continente e outros.

Espelho:  Quando não fazes perguntas estúpidas, inspiras-me simpatia. No entanto, como já te expliquei, não deves crer que deste lado do espelho haja mais respostas ou mais verdades do que há desse lado, apenas um pouco mais de lucidez e - obviamente - maior reflexão. Como também me parece acontecer deste lado e além das fronteiras, entre países civilizados.

 

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Giuseppe Steffenino, é médico cardiologista no noroeste da Itália e está ligado a nós pela admiração que tem a Portugal e porque, com a sua companheira, Manuela Dalbesio, enfermeira, foram salvos de afogamento por nadadores-salvadores numa praia alentejana o ano passado. Quiseram encontrar mais tarde os heróis que os salvaram e deram por acaso com o nosso jornal. Temos mantido conversas desde então e sabido como os italianos estão a viver este momento avassalador da pandemia do covid-19, contados por quem está na linha da frente, que partilharemos com os leitores.

Para contactar o autor pode usar-se o gsteffenino@hotmail.it

Nota do editor: A tradução dos textos é da responsabilidade do Tribuna Alentejo.

 

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