25 Março 2020      11:36

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Covid-19 e o possível colapso da democracia e do projecto europeu

Nunca nos seria possível imaginar há pouco mais de 3 meses o que nos reservaria o futuro mais próximo. Na viragem do ano poucos imaginariam que ao dia de hoje estariamos a viver uma catástrofe humana desta magnitude e com estas características, que nos obriga a viver em regime de confinamento e afastamento social, que fechou os nossos espaços de convívio, que cancelou os nossos espetáculos culturais mais estimados e que parou o desporto, não só em Portugal, mas por todo o mundo. Cenário completamente inaudito, e inédito no pós 2ª Guerra Mundial em solo europeu.

Esta circunstância que nos faz viver em regime de Estado de emergência obriga-nos a tomar como prioridade máxima a solução mais suave e célere possível, para que se saia desta difícil situação com o menor número de baixas humanas, e com o menor dano possível nas nossas economias, exactamente por esta ordem.

Porém, quando o actual pesadelo estiver sob controlo – pesadelo esse que só será ultrapassado com uma quantidade gigante de sacrifício e sobretudo disciplina – virá um rescaldo. Esse rescaldo, à semelhança da actual situação, será também este, um pesadelo.

O rescaldo do terramoto sócio-económico provocado pelo Covid-19 gerará réplicas tão difíceis de lidar como o próprio vírus, todavia, virá para ameaçar a nossa economia e, em dominó, a nossa democracia e o projecto europeu.

Ainda que todos vivamos na incerteza de como e quando irá acabar esta pandemia, é já dado como certo que uma grave crise económica global assole as economias afectadas – à qual Portugal não escapará – em virtude da estagnação comercial provocada pela situação de quarentena, que atrofiará as várias economias globais em diferentes escalas. Se o mundo pára, o comércio também, assim como o crescimento, como que peças de dominó. Esta crise que se avizinha, tal como a pandemia, ainda se afigura totalmente imprevisível quanto ao seu desfecho e duração.

 

Há outra questão que não sabemos. Que novos líderes vão fabricar estas crises, e que actuais líderes e lideranças vão sobreviver às mesmas. Sabemos que a pandemia pode ser bem gerida pelos actuais líderes, porém o segundo embate será diferente. Quando a crise económica entrar em força no rescaldo da pandemia, o assunto na ordem do dia passa a ser de novo a contenção, mas desta vez, na carteira.

Voltaremos a ser bombardeados com o aumento do desemprego, com aumentos de preços, diminuição de salários e poder de compra, cortes de regalias, cortes de despesas, famílias com a corda na garganta, reformados e pensionistas a verem, de novo, cortes nos rendimentos, aumento da quantidade de trabalho, aumento de horas de trabalho semanais, e muito rapidamente nos daremos conta que o calvário que vivemos entre 2008 e 2015 está de volta, e rapidamente nos vamos esquecer do que motivou esse retorno a tal aflição, e só nos assolará a urgência em sair dessa situação, o que levará, por fim, a níveis imprevisíveis de contestação.

É precisamente aqui que se irá dar um ponto de viragem, para melhor, ou para pior, para mais do mesmo não será. A nova crise virá gerar o clima perfeito para outro vírus que nos assola já com grande força e disseminação, o populismo de extrema direita e identitário. E esse vírus, mediante as condições perfeitas em que se irá encontrar no rescaldo pandémico e no meio da crise económica, não poderá ser combatido com os mesmos mecanismos utilizados hoje em dia, que hoje em dia, já não são eles eficientes, neste futuro, serão ainda menos.

É neste efeito em cadeia que o Covid-19 figura como a maior ameaça às nossas democracias e ao nosso projecto europeu. Tudo o que este poderá vir a provocar, consegue colocar facilmente as nossas democracias nas mãos das extremas direitas identitárias, e consequentemente, criar uma disrupção e divisão tais no interior da União Europeia, que a façam dividir-se, ou mesmo colapsar. E aí, toda a realidade que havíamos conhecido até hoje e dado como adquirida, desaparecerá para sempre.

E é por isso que, no rescaldo desta pandemia, quando vierem os tempos difíceis que se antevêem, que servirão de momento “ponte” na nossa história colectiva – tal como foi a Revolução Industrial, a Revolução Francesa, as Guerras Mundiais, o Colapso do Bloco Soviético, a Unificação da Alemanha (e Europa), e os Atentados ao World Trade Center – tanto as democracias europeias, como o projecto europeu terão obrigatoriamente que se apresentar de postura fria e coração quente, pois vão ambos possivelmente travar uma dura batalha pela própria vida, da qual nunca mais sairão iguais, seja para o bem, seja para o mal.

Em suma, como que defronte à melhor prova de um simples efeito borboleta, onde uma mera partícula microscópica coloca em risco de colapso a gigantesca realidade civilizacional quotidiana que dávamos por adquirida, estaremos na primeira fila para assistir nos próximos anos a uma mudança de paradigma sem precedentes na nossa história contemporânea.

Dificilmente a Europa como a conhecemos será a mesma.

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