2 Maio 2018      15:03

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Compreender o "orgulho" do mundo rural do Baixo Alentejo

Uns dizem que o Alentejo é uno, outros que há vários alentejos.

Mais do que administrativa ou filosófica, a questão é tão séria quanto evidente: há realidades muito distintas dentro desta mesma região que se chama Alentejo e com excepção dos centros urbanos de média dimensão como as capitais de distrito Beja, Évora e Portalegre, a vida ainda é muito dura, sobretudo para quem persiste numa vida ligada ao campo e à lavoura. O facto pode ser visto à luz da dinâmica populacional que se transfere dos campos para as cidades, onde já vive mais de metade da população mundial (em 2014 já eram 54%).

Mas há quem resista e persistência e resiliência são características que são facilmente atribuíveis aos alentejanos, particularmente aos que ficaram, porque a diáspora alentejana é ela também grande, como aliás a é a do interior do país. Só neste contexto se pode compreender o significado de "orgulho" do mundo rural, como sublinham os eventos, feiras e encontros que giram à volta da cultura popular do campo, particularmente no Baixo Alentejo. Bons exemplos como a Ovibeja em Beja, a Feira do Campo Alentejano em Aljustrel, ou a Feira de Garvão em Ourique, onde por sinal também acontece a Feira do Porco Alentejano.

As organizações destes eventos compreenderam que as particularidades da vida no campo já não interessam apenas a quem dele vive mas também a quem foi forçado a abandoná-lo, aos que dele se libertaram há gerações mas que o guardam com a reverência  e nostalgia à ancestralidade e a todos os outros que alimentam uma visão romântica do Alentejo, sustentada pela boa mesa, feita de boa comida e melhores vinhos. Mais do que feiras, estes eventos hoje são montras e mostras do genuíno Alentejo campestre, e que, visivelmente, não se compadece com a agricultura intensiva e carregada de químicos. E por isso estas feiras crescem em tamanho, qualidade e público.

A próxima feira no Alentejo acontece dentro de dias e consubstancia a tese do "orgulho" no campo com a organização a defender a Feira de Garvão em Ourique como um "palco de memórias, de convergências e de afirmação de uma capacidade produtiva que tem alavancado a economia local e a resiliência de quem trabalha e vive da terra", feita para o convívio, com degustações, concursos de raças autóctones e leilões, num guião que segue o contínuo "de saberes acumulados e de sentido de futuro".

Trocado por miúdos, a vida no campo não só não se perdeu como perdurará, pelo menos enquanto esta e as próximas gerações fizerem o caminho da reconciliação com o mundo rural porque ele, o campo, é a origem de tudo o que conhecemos enquanto civilização. E podemos viver em sofisticadas torres nos centros urbanos mas a boa comida continuará a vir desse campo que muitos só conhecem da televisão e das feiras. Isto é, se continuar a haver gente a resistir, a defender e a respeitar esse mundo rural equilibrado.

Porque para desiquilibrios já bastam as cidades onde uma grande maioria de nós se encavalita.

Imagem de capa de João Madeira, em autoctones.ruralbit.com

 

 

 

 

 

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