3 Dezembro 2018      14:52

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Civilização, Animalismo e outros (Fac)Ismos

«Quando uma civilização se abandona toda ao materialismo, e dele tira, como a nossa, todos os seus gozos e todas as suas glórias, tende sempre a julgar as civilizações alheias segundo a abundância ou a escassez do progresso material, industrial e sumptuário.» Eça de Queiroz

Recentemente, a ministra da Cultura Graça Fonseca trouxe a público uma concepção personalizada sobre Civilização, através de uma polémica inesperada sobre tauromaquia, criando algumas feridas políticas e sobretudo acicatando uma série de opiniões e comentários sobre a sua versão desta “civilidade”. Por não resistir a esse comentário, teço igualmente algumas considerações decorrentes do desiderato da senhora ministra. Desde logo perfilho de simpatia pela observação do nosso Eça de Queiroz, na suposição que quando existe abundância económica, logo material, há uma tendência para essa sociedade olhar de soslaio, com superioridade moral para as demais que não reúnem essas condições e sobretudo que assentam em determinados pilares sócio-etno-culturais, entretanto abandonados pelas primeiras. Há como que uma negação, um abandono da sua historicidade, da sua identidade, como elemento demonstrativo da evolução de Civilização. Acontece que além de evoluírem, as civilizações também podem definhar, como a História tão bem nos ilustra. Apenas necessitam de um período de incubação um pouco maior em comparação com os ciclos económicos de retracção ou crescimento. Portanto, esse progressismo não é sempre e em rigor sinal de Civilização, mas por vezes de regressão e decadência. Esta dicotomia, parida da abundância deste ultra-liberalismo, germinado nas grandes metrópoles, do Urbanismo com o mundo rural, é cada vez mais acentuada, evidenciando um desconhecimento entre populações próximas entre si geograficamente, mas inquestionavelmente distantes na sua concepção social da vida. A censura à tauromaquia, como todo o Animalismo nascido das gerações iminentemente urbanas parece-me um infeliz resultado deste autismo. Notemos no caso concreto da tauromaquia que muitos dos que defendem a sua abolição, chegam a defendê-la em nome do bem-estar animal  sabendo à priori que essa proibição levaria ao abate indiscriminado da raça do touro bravo, levando no limite à sua extinção, mas a perseverança e radicalismo da sua superioridade moral face aos aficcionados, faz sobrepor essa ambição mesmo que ela corrompa a sua mensagem inicial que é a defesa da espécie. Esse Urbanismo que nos impõe paulatinamente a sua arrogância, a sua mundividência, o seu ensaio social, é o mesmo que permite o isolamento entre pessoas, a indiferença perante a mendicidade, a ausência de comunicação entre vizinhos, o exacerbamento do escape do futebol, a banalização da vida humana, a sobrevalorização do animal em detrimento do ser humano, o desenraizamento familiar.

Dizia recentemente Daniel Oliveira, «amamos cães como se fossem filhos». Todo este modus vivendis nasce de uma intolerância e desconhecimento pelo outro. Mas esta intolerância não chegou casuisticamente. Tal como observava Alexander Soljenítsin «a intolerância é o primeiro sinal de uma educação inadequada. Uma pessoa mal-educada porta-se com uma impaciência arrogante, enquanto uma educação verdadeiramente profunda transpira humildade.» E temos nós, sociedade ocidental e ultra-liberal, alimentado esta intolerância por exemplo,  nos bancos de escola, onde professores preocupados com salários e estabilidade profissional mas indiferentes ao rumo do futuro das próximas gerações, calam-se perante os infames sistemas de avaliação das nossas escolas que reiteradamente subvertem a qualidade do ensino numa lógica meramente economicista e estatística (vide https://www.publico.pt/2018/11/21/sociedade/noticia/chumbar-aluno-custa-6000-euros-ensinalo-estudar-so-87-1851820?fbclid=IwAR2vjovLeNPSGdnYhxEAoNSxP9iPe_cr6-Xz2i6GkkvicYwD02eTsFBfu14 ). Estes, como principais agentes da educação e formação dos jovens e do futuro de um país, que devem ser acarinhados pela sua tutela, não podem eximir-se a essa responsabilidade.   E os governos mantendo o sistema de ensino como está, acabam por promover a ausência de autoridade do professor, a desistência sobre a responsabilidade, a incapacidade de estimular os estudantes a pensar e a debater sobre os conteúdos e sobretudo a dar-lhes a possibilidade de se frustrarem e lidarem eles próprios com essa adversidade e crescerem entre ela. E os pais, porque não têm tempo para educar e amar ou, porque entendem que fazê-lo é tratarem os filhos entre iguais, como meros amigos, dão nova facada na estruturação moral e social dessas ainda crianças, futuros adultos. Assim, as novas gerações urbanas que absorvem um caldo cultural muito sui generis, desobrigadas de qualquer contrariedade na escola inclusive na exigência sobre a aquisição de conhecimentos, deixarão cada vez mais de saber lidar com o não e com a diferença. Assim vamos constatando neste mundo um latente individualismo onde, bandas de música têm cada vez menos lugar num mundo a solo. Mais desolador não é verificar que os egos individuais se sobrepõem nas artes à criação e partilhas entre artistas, mas sim observar paradoxalmente a uma maior informação e sensibilização sobre inclusão e tolerância, um aumento da violência doméstica entre jovens namorados e um aumento de episódios de racismo e assédio moral infanto-juvenil (bullying) nas escolas, por exemplo. Mas também é esta uma geração mais enferma (doenças e distúrbios psiquiátricos pululam entre consultórios e hospitais deste país), mais materialista e mais imediatista, com os perigos inerentes a essas apropriações. Assim as escolas que deveriam formar cidadãos exemplares para o futuro, muitos decisores políticos e governantes, tornam-se num laboratório de cultivo de proto-ditadores incapazes de saber ouvir e respeitar opiniões alheias.

E por fim, eis o Populismo! Um Populismo que grassa nas lideranças dos países ocidentais, sem agenda própria, sem noção de estadismo e que prontamente sucumbe às agendas mediáticas e às pressões da comunicação social, agora reforçada pela vox pop das redes sociais. Estas democracias cada vez mais voláteis que são governadas em tempo real via Twitter, olvidaram questões fundamentais de um Estado de Direito tais como transparência, seriedade e coerência dos políticos, a preservação da segurança e o garante da justiça dos cidadãos, o respeito pela democracia e suas instituições e uma equidade que trate de forma diferente o que é verdadeiramente diferente (Imigração).

Nestas três realidades do Urbanismo, Analfabetismo e Populismo sociais, criaram-se as sensibilidades animalistas que em abono da verdade ofendem a causa da sustentabilidade e ecologia e sobretudo deflagram uma preocupação sobre valores de conhecimento, respeito e tolerância sobre o próximo.

Se parece pouco verosímil que a actual sociedade possa lidar de forma eficiente com a problemática da alterações climáticas e aquecimento global, quando subverte as suas prioridades humanistas e põe de lado o seu semelhante, exorbitando a valorização do animal, menos crível ainda será acreditar que a mesma esteja profundamente empenhada em agilizar soluções sociais e políticas para os dramas vividos no presente, soando por isso o rufar dos tambores de novos Fascismos.

 

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