15 Setembro 2018      11:05

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Brotoeja

Acordei cheio de comichão. O meu corpo parecia uma posta mirandesa, antes de estar grelhada. A brotoeja é definida da seguinte forma num dicionário: substantivo feminino Erupção cutânea, acompanhada de prurido. (Priberam). Ora, no Alentejo, ganha um significado completamente diferente. Não foge deste mas aprofunda-se e além de comichão intensa, ultrapassa essa fronteira e, ouso dizer, passam a haver pessoas que nos dão brotoeja. Naquele dia acordei cheio de brotoeja.

A cama, se fosse em gelo, até teria ajudado, mas como era inverno, os lençóis eram de flanela e não me deixavam sossegado. Coçava-me todo, não parava quieto nem dormia. Alastrava-se pelo corpo aquela sensação de me estar a transformar numa coisa qualquer que nem eu sabia bem o que era. Lembrava-me a Mosca de Kafka. Talvez me fosse transformar numa mosca e ainda não o soubesse. A ideia parecia-me descabida, mas ao mesmo tempo, coçando-me incessantemente. Logo, a atenção do cérebro ia toda para a zona afetada e para a operacionalização das mãos. A zona afetada já se estendera quase a todo o corpo e não parava de avançar. Em duas horas, já todo eu era uma posta. 

Que fazer? A brotoeja tinha tomado conta de mim. Seria alguém que me dera brotoeja. O meu sangue estava oficialmente inutilizado. Teria dormido no meio de um campo de urtigas sem o saber? O meu corpo não se reconhecia. Decidi sair da cama e fazer alguma coisa. Tomar um banho de uma erva qualquer que fizesse isto passar. Esconder-me numa banheira cheia de gelo para ver se aquela coisa desaparecia.

Se calhar tinha sido alguma coisa que comi. Ou um bicho que me passou por cima na cama. Nem me teria apercebido do monstro que me causara esta brotoeja. Acho que era uma coisa grande, gigante. Talvez fosse maior do que toda a minha casa. E eu nem tinha notado. Não conseguia pensar. Coçava-me só. Ainda bem que havia quinze dias que não cortava as unhas. Assim tinha umas garras mais poderosas para arrasar fosse o que fosse que andava debaixo da minha pele e no meu sangue.

Irava. Descontrolava-me. Há plantas, comidas, insectos, animais e pessoas que nos dão brotoeja. Poderia ter sido uma dessas. Uma tinha sido de certeza. Mas isso, esse facto não me teria feito passar a comichão nem a brotoeja. Agarrei no telefone e liguei para a saúde 24. Mande-me uma coisa qualquer para me fazer passar isto, Senhora Enfermeira. Não me consigo aguentar. Não consigo dormir. Não me consigo sentar, nem me consigo levantar. Mande-me aí uma coisa pelo telefone.

A senhora não acedeu aos meus pedidos desesperados e decidiu mandar-me ir ao Centro de Saúde ver o que o médico me receitava, ou dava ali na hora. A muito esforço lá agarrei no carro e entre uma mão no volante e a outra a coçar o corpinho todo. Era nas pernas, nos braços, no peito e na barriga. Tudo em mim comichava e a brotoeja não parava. Cheguei ao Centro de Saúde e sentei-me, depois de preencher a ficha. Escondia o pescoço.

O que me diria o médico? Perguntar-me-ia se tinha comido camarão, alguma alergia? Talvez ostras. Não tinha comido nada disso, só comera uma sopinha sem batata. Nem isso me faria ser alérgico, acreditava eu. Talvez fosse uma das pessoas que encontrei no dia anterior. Sim, só podia ser isso, ou talvez não fosse. Não sei ao certo.

Sentei-me na frente do médico e arregaçando as mangas disse, com ar pesaroso, doutor, olhe-me estes braços, esta brutoeja. - Oh homem não seja bruto. A única coisa que tem é uma reação alérgica, pode ser stress. Teve alguma coisa que lhe possa ter provocado isso? Um stress com alguma coisa? Talvez tenha sido isso, ou alergia. Os meus olhos procuravam certezas nos lábios e nas barbas do homem, doutor, que me falava. Ele estava certo. Eu procurava certezas, enquanto me coçava. Enquanto me passava tudo pela cabeça.

O médico lá me disse, vai levar uma injeção de cortisona e isso há de passar. No caso de não passar, volte cá. Vá já para casa que isto vai dar-lhe sono. Assim lá fiquei mais descansado. A enfermeira deu-me a injeção de cortisona e agarrei no carro, a velocidade moderada e deitei-me na cama a dormir.

Quando acordei, ao fim de umas horas, já não me ia transformar em mosca e as postas de mirandesa em que se transformara o meu corpo já não seriam. Tinha, no entanto, sido uma experiência traumática, esta da brotoeja. Tanto assim foi que me fez escrever sobre ela. Ainda assim, no Alentejo, continua a ser uma coisa diferente.   

 

 

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