6 Agosto 2020      09:01

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Bonecos de Estremoz, do Alentejo para o Mundo

Seguimos o nosso périplo pelas manifestações culturais, tão singulares e genuínas da nossa região. De modelação única e pelas mensagens simbólicas que contêm, o figurado em barro de Estremoz é uma curiosa e original forma de arte que, pela sua elegância, nos faz especar em busca da sua interpretação.

Com uma inventariação de mais de cem figuras, relacionadas com as vivencias rurais e urbanas do quotidiano do povo alentejano, estas emblemáticas figuras ostentam já três séculos de história. Das suas origens remonta a primeira referência em inícios do séc. XVIII, sendo no ano de 1770 que se constata a existência das “boniqueiras”, mulheres que, carinhosamente concebiam esta prática, ainda que não reconhecida ou regulada enquanto ofício[1]. Este não reconhecimento, que advinha da condição feminina, daria a essas mulheres apenas um status de meras produtoras de curiosidades. Pela escassa informação histórica e uma vez que nos livros das taxas dos ofícios (séc. XVIII), não existia qualquer referência aos bonecos nos inventários de peças feitos por oleiros, o Historiador Hugo Guerreiro encontra finalmente a primeira abordagem numa nota de ata de vereação de 10 de Outubro do já citado ano de 1770. Nesta sessão, os oleiros fizeram uma petição ao rei para que as pessoas não examinadas ficassem proibidas de exercer tal ofício. E nesse momento, como refere Hugo Guerreiro[2], as “boniqueiras”, como eram chamadas, irrompem por ali adentro e dizem: “Nós não somos um ofício regulado, portanto não temos que seguir essas regras”. E a câmara aceitou que elas continuassem a sua arte. 

De cariz mais religioso foram os primeiros bonecos. Face às dificuldades económicas em obter imagens de devoção em talha, parece nascer a tradição de modelar santinhos em barro. Começam então a aparecer os presépios, os Reis Magos e um repertório de grande valor artístico em torno dos pastores: o “Pastor a comer”; o “Pastor a dormir”; o “Pastor com cabrito às costas”, entre outros. Não menos importante foi também a representação de imagens consagradas a vários períodos festivos como “As Primaveras”. Já durante o séc. XIX, o figurino é bastante mais realista e agora representando episódios da vida quotidiana como a matança do porco. Também a variedade de ofícios representados começou a ser mais evidente, assim como a representação da vida diária das mulheres. Os mais novos não foram esquecidos e existem hoje uma boa variedade de brinquedos de assobio e miniaturas ou “brincos”.

E como em todas as artes, os figurados em barro de Estremoz, em inícios do séc. XX, atravessam o seu período menos brilhante. Pela sua pouca rentabilidade, quase foram esquecidos depois da morte da barrista Gertrudes Marques, sendo que o seu reaparecimento se deve a fundação da Escola de Artes e Ofícios em 1924.

Mas no ano de 2017, surge a tão aguardada classificação da "Produção de Figurado em Barro de Estremoz", vulgarmente conhecida como "Bonecos de Estremoz" e decidida na 12.ª Reunião do Comité Intergovernamental da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO) para Salvaguarda do Património Cultural Imaterial, que decorreu na Ilha Jeju, na Coreia do Sul. Uma candidatura que teve como responsável técnico o director do Museu Municipal de Estremoz, Hugo Guerreiro.

De vital importância na sua preservação e divulgação, o Museu Municipal de Estremoz (que inclui dois núcleos: a coleção vinda em 1941 da Escola de Artes e Ofícios e a coleção doada em 1971 por Júlio Reis Pereira, constituída por 375 figuras) é hoje um local onde se pode deslumbrar o esplendor desta arte, através das suas exposições de carácter permanente.

Imagem de capa de Andreia Mayer

 

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