29 Abril 2020      13:27

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Alentejo, um paraíso da doçaria conventual

Este livro se não entregará a outrem que não seja pessoa desta Casa, nem por cedência,

nem por empréstimo por afectar os proveitos, da feitura de doces que nesta Casa são feitos.

Santa Clara de Évora, 26 de Outubro de 1729

Inez Maria do Rosário

Escrivã

 

Por diversas vezes temos abordado os vários domínios em que o património cultural se manifesta na nossa região.  Seguimos a nossa demanda por uma prática ancestral e que merece o devido reconhecimento – os doces conventuais.

Para além de estar na origem de uma boa parte de doces e bolos com maior reputação no Alentejo, a doçaria conventual portuguesa e alentejana em particular, brota de uma herança secular. Na sua génese estiveram as comunidades femininas residentes em conventos que,  com grande secretismo aprimoraram e desenvolveram com requinte esta arte. A par de outras atividades e afazeres nos mosteiros e conventos, a doçaria era uma forma de preencher o tempo, experimentando e inovando múltiplas possibilidades, sempre que não houvera afazeres de cariz divino. Do variado receituário, enriquecido pelo açúcar proveniente do Brasil no séc. XVI , juntamente com a farinha, os ovos, amêndoa e azeite, a doçaria regional assumia-se como uma verdadeira fonte de receitas paras as suas instituições (SARAMAGO, 1997). Por venda a particulares e a conventos masculinos, as freiras chegavam a fazer concorrência aos confeiteiros (BRAGA, 2015).  Todavia, a  produção destes autênticos regalos, a sua mostra e apreciação, tinham ainda outras finalidades como refere CONDE (2013) “Os doces produzidos eram apreciados não apenas pela comunidade: funcionavam como presentes, em caixinhas próprias, tanto para os Dons Abades como para o próprio monarca, como aconteceu com as ofertas idas do mosteiro de S. Bento de Cástris para D. João V. Também D. Maria II, em visita a Évora, visitou o convento do Calvário, de clarissas reformadas, famoso pelo seu Pão de Rala.”

No Alentejo, e como grande referência, destacavam-se as Comunidades da Conceição de Beja, Paraíso e Santa Clara em Évora, das Maltezas de Estremoz e das Chagas de Vila Viçosa (CONDE, 2013). E é precisamente do Convento de Santa Clara, num manuscrito escrito por Inês Maria do Rosário e feito sob as ordens da Abadessa  Sóror Maria Leocádia do Monte do Carmo (1729), que nos chegou a primeira compilação portuguesa de receitas conventuais femininas Livro das Receitas de Doces e Cozinhados vários d’Este Convento de Santa Clara d’Evora  (BRAGA, 2015). Deste livro fazem parte: Broas de Milho de Santa Clara; Barriguinhas de Freiras; Alfitetes de Santa Clara; Queijinho do Céu; Manjar Celeste, entre outros (1).

Os Mosteiros e Conventos guardavam os segredos do receituário da doçaria, mas com a extinção das Ordens Religiosas  foram obrigadas a sair de dentro das suas paredes, chegando aos dias de hoje para adocicar o nosso paladar.  Bolo Podre Conventual; Bolo de Mel de Santa Helena; Coalhada do Convento; Encharcada de Santa Clara; Sericá; Pão de Rala; Tiborna de Ovos; Bolo Fidalgo, são alguns dos exemplos que podem ser apreciados por toda a Região. A Doçaria Conventual Alentejana é um património singular e para a sua salvaguarda  em muito tem contribuído a Mostra de Doçaria das Alcáçovas. Um certame que, diga-se, deu um novo alento à doçaria conventual e  palaciana.

  

  1. – Escola EB 2/3 de Santa Clara de Évora / Agrupamento nº3 de Escolas de Évora

Livro das Receitas de Doces e Cozinhados Vários d´este Convento de Santa Clara    d´Évora, 1729. Sóror Maria Leocádia do Monte do Carmo, Abadessa.

Apresentação e notas de Pilar Silva, 2010.

 

 

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