9 Setembro 2018      11:45

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Alentejo não é terra de pão, é terra de guerra

Alentejo pacífico e tranquilo, terra de pão. Utopia turística, terra de gente calma e pacífica. Povo entorpecido pelo calor. Mas esta imagem de idílica paz é recente, pois desde os primórdios da nossa nacionalidade que este torrão de terra foi palco das mais sangrentas guerras e disputas militares.

A reconquista cristã e a consolidação do território nacional entre 1139 e 1340, as guerras entre Portugal e Castela entre 1369 e 1383, a guerra da Independência entre 1383 e 1411, a guerra da Sucessão de Castela entre 1475 e 1479, a perda da Independência Nacional em 1580, a Guerra da Restauração da Independência Nacional em 1640 e 1668, a Guerra da Sucessão entre 1704 e 1715, a Guerra dos 7 anos entre 1762 e 1763, a Campanha de 1801, a Guerra Peninsular entre 1807 e 1811, as Guerras Liberais entre 1832 e 1834, a Guerra Civil (Maria da Fonte e Patuleia) entre 1846 e 1847. Todas estas batalhas nos bateram à porta, e mais do que bater, derrubaram-nos as portas.

Esta terra de castelos e cidades amuralhadas foi um dos bastiões mais importantes da defesa nacional contra as investidas de Madrid, que encontravam no Alentejo a porta de entrada mais direta para chegar à capital do Reino- Lisboa.

Povoados amuralhados para refúgio das populações, extremamente fortificados, especialmente os da raia transfronteiriça. De realçar a cidade de Elvas, que desde 2012 está classificada pela UNESCO como Património Mundial, por ser uma autêntica e excecional cidade-quartel com as suas respetivas fortificações, sendo o maior conjunto de fortificações abaluartadas do mundo.

As populações raianas foram das mais massacradas, pois nos períodos de guerra, para além das batalhas, sofriam constantes pilhagens ao seu gado e haveres pelo inimigo de além-fronteira. Em altura de guerra, arrasava-se o perímetro à volta das localidades para que o inimigo não se pudesse aquartelar. Deste modo, o arvoredo, as hortas, as ermidas, as fontes e demais edificações eram arrasadas, mas não totalmente, deixando-se uns palmos das estruturas de pé para depois se reconstruirem com base no que eram

Muitos foram os mortos e feridos. Os hospitais e cemitérios não davam vazão. As valas à volta dos hospitais acolhiam os que neles faleciam vítimas dos ferimentos de batalha. Os campos de batalha eram cemitério dos que lá tombavam, os chamados “campos de honra”, nos quais se enterravam os que corajosamente morriam em combate, independentemente fossem os atacados ou os atacantes.

A mortandade não se limitava aos arredores, por vezes atingia os corações das povoações alentejanas. A carnificina a que assistiu quando do saque de Évora em julho de 1808 é um exemplo disso. Este ataque à cidade eborense provocou um número indeterminado de mortes e feridos, apontando-se para um número que oscila entre os 2.000 e os 8.000, e na sua maior parte referentes às forças aliadas- portugueses e espanhóis. No dia 29 de julho de 1808, após derrotarem em campo de batalha as forças aliadas, os soldados franceses irromperam pela cidade adentro, saqueando e degolando quem encontravam pela frente. Quer os que se acoitavam nas igrejas, ou com quem se deparavam nas praças e nas ruas. Um autêntico massacre e selvajaria do qual hoje já não se guarda memória.

Os campos que nos rodeiam por este Alentejo fora, bem regados de sangue foram, e nunca poderemos esquecer a valentia e a resistência dos nossos antepassados e só podemos levantar as mãos aos céus e agradecer a paz e calma dos nossos dias.

 

Pormenor da  A Batalha de Ourique na Igreja Matriz  de Castro Verde  de pbase.com

 

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