18 Novembro 2018      11:46

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Agostinho da Silva e Barry Lyndon de Stanley Kubrick

Agostinho da Silva

Portugal deu forma duradoira à terra, deu caminho lógico ao mar – fechando-o, restando-lhe para o futuro criar condições para o que o mestre chama de céu aberto na terra. "Céu palpável, contactável, sem ser apenas conceito ou crença. A impressão de se ter chegado ao máximo."

O que ainda não se fez, mas já se sonhou, no sonho acordado que é a ficção.

Afastados do Tempo e do Espaço. Isto é, imbuídos de uma intemporalidade para lá de qualquer ideia de Tempo, e a observar o todo espacial, portanto fora do Espaço. Usa para melhor argumentar o episódio da Ilha dos Amores dos Lusíadas.

Há um lirismo (tão) intenso no seu discurso e uma calma (tão) genuína no seu rosto que o resultado só pode gerar profunda simpatia. O ancião que nos diz como viver por via de métodos aparentemente contrários. “Vivam por vós, sem grilhetas e sem planos que jamais se irão concretizar enquanto tal, que serão outra coisa”, diz ele. “Sem planos ou destino predefinido senão por algo superior que não se define”. Perante o divino apenas resta o silêncio. E, no entanto, fala como um não crente, como se distante da aceitação sem fronteiras, o elemento basilar do crente.

 

Barry Lyndon (1975), de Stanley Kubrick

Belo, demasiado belo por fora para criar contraste suficiente com o inútil e pobre humano, ser sem forma moral, incapaz de existir para lá da hipótese de sobrevivência, hipótese quase sempre falsa quando antevista ou vista de cima. Homem como brinquedo de um deus que se dá ao luxo de não existir, pelo menos enquanto Deus. Kubrick existe mas não é Deus, pois este não existe, nem deus, apenas brinca ao faz de conta com maquinaria de última geração. Atento aos detalhes, mas tão inútil como qualquer de nós? Nem tanto, pois consciente, e por isso capaz de brincar como se fosse a sério – se calhar, a única forma legítima que alguém tem de ser sério. Que é como quem diz: consciente da brincadeira.

Ah, e o actor não podia ser outro. Ryan O’Neal. Brilhante acerto de casting. Quem melhor para representar a inexpressividade ao serviço da existência. Homem sem qualidades aquém (pois como se visto sempre de lado) do Homem sem Qualidades.

 

Imagem de circuloantoniotelmo.wordpress.com

 

 

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