7 Maio 2016      10:19

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A VISITA

"PARALELO 39N"

‘Há visitas que esperamos e acabam por chegar e há visitas que não esperamos e chegam sem nos avisar. Não gosto de chegar sem avisar, nem gosto de chegar tarde. Surpresas também não é muito comigo.’ – iniciava-se assim o discurso do convidado de honra do evento que se realizou na sala de visitas do Museu. E tudo em honra de um quadro pintado há uns anos largos. Não era um quadro muito grande. Era, aliás, o mais pequeno e singelo do pintor que o tinha imaginado e criado.

‘A problemática da criação é, de facto, um problema que não se ultrapassa facilmente. É como uma fonte desenhada numa nascente, no meio de uma umbria fresca, no alto da montanha. A nascente jorra água cristalina e pura, como se não se esgotasse nunca. Todo o dia e noite, tudo parece não ter fim. Porém, um dia, quando os indícios não indicam ainda o desfecho, a água esgota-se e a nascente seca. O mesmo acontece com a inspiração e nada mais se cria a partir dessa hora.’ – continuava o homem que dava a palestra em frente ao pequeno quadro.

Toda a gente estava sentada em cadeiras dispostas em diagonal, para o efeito. Várias filas de cadeiras, em jeito de anfiteatro, olhavam o pequeno púlpito de vidro, em frente ao quadro, ainda coberto com um pano que ostentava o símbolo do Museu. O palestrante continuava a falar. Falava também da vida do criador do quadro que vivera numa cidade próxima. Esta era das poucas obras que restara do incêndio do Museu antigo. Do pintor era a continuidade não biológica do seu ser. Tinha em si, nas cores castanhas e verdes que compunham o quadro, as impressões digitais gravadas e era, ao mesmo tempo, o seu número de identificação fiscal, segurança social, fotografia tipo passe e número de utente.

Morrera há muitos anos, na mesma casa onde nascera e vivera. O seu nome era conhecido em todos os recantos do país nórdico onde pintara a vida. Nunca daí para a frente se voltariam a ver os seus quadros juntos. Uns desapareceriam no incêndio, outros ficariam escondidos em coleções e sítios de que não se voltaria a ouvir falar.

Entre todos esses, um havia que, não sendo a obra-prima do autor, deixava os olhos a tentar descobrir os pormenores. Desse se falava hoje na palestra. O homem que a fazia tinha nos recantos do quadro as respostas que se escondiam. Sabia de cor onde assentava cada gota de tinta, sabia ao certo o motivo ou pensava que o sabia. Certo é que convencia todos daquilo que contava. Não tinha ninguém ainda refutado a sua interpretação e o homem continuava a falar do pequeno quadro chamado “A visita”.

‘A manhã é retratada em tons cinza; nas pedras acastanhadas da parede, uma porta, também acastanhada, e, ao lado, todo o arvoredo que compõe o quadro… Vêem-se duas figuras. De um lado, à porta, do lado de fora, uma mulher com uma criança que aguardam a entrada e falam com a dona da casa. Do lado de dentro, uma mulher de avental branco que os recebe com um sorriso. Nada mais nada menos que o pintor a retratar-se em criança, acompanhado de sua mãe a visitar a madrinha, por altura do seu aniversário, de quem receberia os bolos e os doces. Representa a felicidade de encontrar o outro, a alegria de partilhar e de encontrar o outro em seu lar. É, no fundo, a fonte que conserva a água jorrada pela inspiração.’ – terminava o palestrante, ao mesmo tempo que, junto com o Diretor do Museu, descerrava o pequeno quadro, que era, no fundo um retrato pintado de uma das muitas visitas que todos fazemos.
 

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