6 Maio 2016      20:22

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A SOCIEDADE DOS CANASTRÕES

"MENOS ESTRANGEIRO"

Em “A Arte na Era de Sua Reprodutibilidade Técnica”, o filósofo e sociólogo Walter Benjamin analisa os impactos das novas tecnologias da comunicação (cinema, rádio e televisão) sobre o modo como as sociedades passaram a se representar por meio das obras de arte, quando estas também passaram a integrar os sistemas de produção industriais. Assim, a arte deixou de ser um objecto de fruição exclusivo das elites letradas, passando a fazer parte do cotidiano das massas.

Mais do que isto, pela arte reproduzida em série as pessoas aprendem a interpretar o seu mundo e a incorporar hábitos e ideias. Antes, somente a igreja e a escola conseguiriam fazer tal coisa. Oitenta anos depois de publicada a obra, com a disseminação dos recursos audiovisuais e com o advento da internet, temos uma realidade em que a palavra incorporar assume a dimensão exata do fenômeno, na medida em que, tal qual atores e modelos, nós somos impelidos a nos tornarmos nós próprios obras de arte.

O intrigante é que esta nossa transfiguração em objectos artísticos nem sempre surge em função da demonstração de um talento particular, de um feito ou de uma qualidade única. Somos levados a simular um atributo individual, o qual pode não existir na realidade.

Tornamo-nos numa sociedade de humanos obrigatoriamente belos, fotogênicos, inteligentes, cultos e, principalmente, felizes, ainda que muitas vezes estes estados d’alma não passem de uma imitação grotesca dos filmes que amamos e das páginas de revistas através das quais formamos o nosso gosto. De facto, compomos uma horda cuja embalagem impecável esconde mazelas inconfessáveis.

Por certo, esta minha abordagem não alcança a globalidade do problema, porque, lado a lado com esta vaziez existencial, correm pela internet muitos exemplos de bons artistas e intelectuais a trilharem caminhos de sucesso impossíveis nos anos em que Benjamin escrevia a sua obra seminal. Contudo, na maioria dos casos, tem-se aquele autorretrato forçosamente sensual ou alegre, aquele encontro de amigos que logo se torna numa celebração da amizade incondicional, aquele passeio que se transforma numa experiência inédita numa ilha deserta até então desconhecida. Sem falar naquele casal que publicava – dia sim, dia não – fotografias das mais puras expressões de amor e de desejo, que agora publica as imagens da ultrassonografia e que publicará uma imagem por dia a mostrar a felicidade do bebê e a maneira extraordinária com que ele se desenvolverá.

E o “textão”?! Milhares de caracteres pelos quais nos transformamos em doutores especialistas em tudo, sabedores de todas as verdades. Um passeio pelas redes sociais com a autoestima em baixa e fechamos o computador com a impressão de sermos os mais imbecis e ridículos dos humanos, verdadeiras vítimas de um jogo de poder possível de ser vencido apenas por atores muito convincentes. Esta concorrência interpessoal visa, sobretudo, o alcance de um prestígio difuso entre os pares, como se a internet, nestes casos, fosse literalmente um palco. E a personagem nele representada contrasta em forma e conteúdo com o ator ou a atriz que lhe dá vida em cena. São politólogos, críticos de arte, vigilantes da moral alheia, paladinos da ética, economistas e teólogos em tempo integral.

Vale dizer que, comumente, estes astros da internet são uns canastrões. Não atuam, fingem. Tentam arduamente expressar a fantasia que fazem de si mesmos, numa perfeita ilustração das conclusões de Benjamim. Como tal, nunca me esqueço de uma senhora que me pediu para tirar uma foto sua num belo sofá exposto numa loja de móveis. Ela retirou da bolsa uma echarpe, ornou-se com ele e posou como se estivesse a se exibir para a revista Caras. Ao pegar de volta a sua máquina fotográfica, agradeceu-me e comentou: “Nunca vou ter um destes na minha casa, mas “no face” ninguém precisa saber, não é?” Eu, cinicamente, respondi-lhe, aos risos: “Com certeza, minha senhora!”. Depois, seguimos cada um às nossas vidas.

Meses depois, um casal pediu-me para lhes tirar uma foto romântica. Eu, novamente, dispus-me a fazer o favor. Porém, não se tratava de uma fotografia comum, mas de um gif. Eu teria que enquadrá-los muito bem e friccionar o disparador fotográfico pelo tempo em que eles cruzavam o visor a correr, até se abraçarem e o homem, galantemente, girá-la duas vezes. O tal gif somente ficou bom na quarta tentativa. Diante do autoritarismo preciosista da mulher e do jeito envergonhado do homem, imaginei que a vontade deste fosse a de girá-la e lançá-la ao ar. Imagem sexista da minha parte, eu sei, porém, nada é pior do que humanos a combinarem autoritarismo e egolatria.

Que não seja surpreendente a constatação de que vivemos em meio a uma epidemia de autoritarismo ególatra, condizente com o retrato do mundo moderno pintado por Benjamin. Isto não quer dizer que a arte perdeu qualidade devido a inovações tecnológicas. Eu argumento apenas que o lugar do artista vem sendo em grande medida ocupado pelo canastrão de facebook, ou por aquele divulgador de citações falsas de grandes escritores.

A propósito, Walter Benjamin dobrar-se-ia de rir, se visse um ‘meme’ com a foto do Fernando Pessoa acompanhada de uma frase edificante, entre aspas, na linha do tempo do seu perfil em uma rede social. Depois de retornar da gargalhada, o pensador alemão certamente diria: “eu avisei”. Todavia, milhares de compartilhamentos depois, Fernando Pessoa já seria um escritor de autoajuda, e o Benjamim... Bem, o nosso querido Benjamim talvez teria mudado o título do seu livro para A Obra de Arte na Era de Sua Reprodutividade Histérica. Na capa, uma jovem tirando um selfie em frente à Monalisa, no museu do Louvre.

 

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