31 Outubro 2015      08:02

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TRÊS BAGAS DE MEDRONHO

Há nas encostas do Caldeirão três bagas de medronho solitárias. Três bagas que se acomodam nas folhas verdes molhadas da chuva que caiu torrencialmente na noite anterior. Há três bagas de medronho no mesmo cacho, uma amarela, outra verde, outra vermelha. São três bagas solitárias de medronho que ficaram esquecidas no meio do monte. Naquela umbria do Caldeirão, há bagas de medronho que se cristalizam na memória dos habitantes da serra. É uma encosta cheia do ruído das chuvas, das manhãs enovoadas do outono que despoleta no fim de setembro e que deixa as suas marcas em todas as outras árvores, mas não nos medronheiros. É nesta altura que o medronho cresce e se transforma em baga, num vermelho tão forte que fermentará em largos potes até que chegue o Natal.

Crescidas nos ramos dos medronheiros que nasceram selvagens, as pequenas campainhas, em cachos gloriosos, surgem como se fossem dar os acordes para a sinfonia que se faz ouvir nos vales e montes de um lugar quase deserto. É infinitamente triste ouvir as campainhas e os sinos que dobram por aqueles que partem e deixam os seus seres refletidos num vazio que nem o verde dos medronheiros conseguem cobrir. Dedicar uma vida aos medronhos, a três bagas de medronho, representando elas as fases do nosso percurso, na vida, é, ao mesmo tempo, honrar aqueles que antes a eles se devotaram. É essa solidão que se pressente e se vê na observação dos montes. O nosso sentir e o nosso ser transformam-se e virtualizam-se nas bagas, no verde das folhas e nas campainhas brancas que são o alimento dos montes, que são toda a serra.

É outubro. É o mês em que o nevoeiro cobre as manhãs e esconde o Sol com mais frequência. É o mês da Feira de Castro. É o mês das castanhas e das primeiras azeitonas, verdes e suculentas que se compram nas feiras. É ainda o último dia de outubro. É ainda dia da Feira de Silves. É mês de apanhar os medronhos nas encostas molhadas, de apanhar as bagas maduras e de escolher as amarelas que ainda não chegaram ao ponto certo para serem recolhidas nos baldes e nos alforges, que os homens e as mulheres transportam, para, depois, porem em sacas de ráfia ou de estopa, para, depois, porem em potes num alambique, para, depois, fermentarem e, depois de destiladas, se transformarem num líquido translúcido, aquilo que outrora foi campânula e baga verde, amarela e vermelha.

Os homens e as mulheres acordam cedo e passam o dia no mato, entre silvas, urzes e estevas, colhendo, uma a uma, as bagas do monte, tentando encontrar, no ramo mais alto, aquele cacho de medronhos graúdos que já quase se desfaz nos dedos mas que, ainda, fará boa aguardente. Os homens e as mulheres sentam-se à hora de almoço e comem uma bucha, entre pão, presunto e carne guardada na manteiga. Transformam o almoço num ritual que se repete dia a dia, semana a semana e ano a ano, enquanto durarem os medronhos nas encostas dos montes ou enquanto houver homens e mulheres que os apanhem. No dia em que esses já não existirem, as três bagas de medronho não serão mais o líquido translúcido bebido pelos homens e pelas mulheres que as apanharam, uma a uma, minuciosamente. Não serão as suas flores, em jeito de campainhas, o som do sino que vela os mortos, pois não haverá mais mortos para velar. Nas encostas será só o silêncio do mato. O cantar dos pássaros será enfraquecido pelas silvas que se acumulam e já não deixam lugar para passagem. Não haverá gente para passar entre os ramos dos medronheiros que choram as gotas da chuva e as três bagas cairão, solitárias e anónimas, no chão. Não haverá quem as conte, quem as guarde e não haverá quem as reconheça. Serão só três bagas de medronho que nascem, amadurecem e caem. 

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