4 Outubro 2015      10:27

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OS ABUTRES CERCANDO O REBANHO

«O milagre está cumprido, nós fomos curados da surdez e do mutismo do egoísmo. O casal fechado, a família fechada, o grupo fechado, a paróquia fechada, a pátria fechada, isso vem de nós, não tem nada a ver com Deus.»

Papa Francisco – 06-09-2015

 

Esta desafortunada metáfora recorda o drama dos refugiados que tão recentemente tem fustigado a Europa. E apesar de todo o rebanho de refugiados sírios e emigrantes de outros países do Médio Oriente que atravessaram a Síria, terem fugido dos predadores chamados Estado Islâmico, a Europa, o seu oásis, o seu refúgio, ao contrário do expectável, não lhes abriu as portas. Este cantinho do Mundo reconhecido como tolerante, aberto, democrata, solidário, o seu porto de abrigo, esqueceu os seus valores de humanidade e civilidade que tinha arreganhado no pós IIª Guerra Mundial.

A Europa que teve no drama dos refugiados do Médio Oriente o seu maior reconhecimento enquanto território de paz, de harmonia e progresso económico e social, quando este gigantesco caudal humano não hesitou minimamente quanto ao seu destino final. Mas esta Europa face ao suposto inesperado desenlace dos refugiados que desde 2014 insistiam em atravessar o Mediterrâneo, comportou-se numa primeira instância como os abutres que pairam no ar esperando pela morte lenta da sua presa.

Esta foi uma Europa que colocou estes milhares e milhares de indefesos refugiados entre a espada do Estado Islâmico e a parede da fronteira europeia sem contemporizações. Se temos cultura e tradição em acolhimento, se já conseguimos receber refugiados de tantos horizontes, de crenças distintas da maioria europeia, tal como por exemplo do Kosovo, em 1999, o que difere de hoje com este pobres refugiados que buscam alguma luz na sua vida?

Este xenofobismo, esta intolerância religiosa, esta indiferença vêm do medo, do desconhecido, da incerteza do que aí pode vir e depois há partidos políticos e alguns líderes europeus que exploram esse medo em função das suas agendas particulares, pondo em causa muitos dos pressupostos humanos e sociais da Europa unida. Pessoalmente como cidadão europeu e democrata-cristão confesso, sinto esta poder ser mais uma enorme oportunidade da Europa manter a dianteira dos Direitos Humanos no Mundo, de esquecer as mágoas e atrocidades do passado, de estender a mão sem que este gesto tenha alguma contrapartida, de perseverar no Bem, afinal!

Não discuto as formalidades que se seguirão sobre o estatuto de refugiado e de emigrante, das necessárias divisões de responsabilidades entre estados, do reforço da segurança europeia, da maior colaboração entre forças policiais no seio do espaço Schengen, agora o que me impele no presente momento é pedir claramente aos nossos políticos que honrem toda a história e cultura de tolerância e acolhimento deste vasto território, deêm as mãos e abram a porta da esperança aos refugiados.

Num Mundo de fricções, de imensas desigualdades, onde emergem novas potencias regionais e mundiais, há algo, quiçá devido à vasta experiência colonial das nações europeias, trazendo a sua redenção, mais concretamente pela assunção dos erros históricos cometidos em muitas das suas antigas possessões ultramarinas, que se espera habitualmente desta velha Europa, da liderança nos valores de Humanismo e Democracia. Atrás destes vêm de imediato os princípios de Pacifismo e Laicidade.

A Europa, em contra corrente ao que se ia sucedendo por todo o Mundo, fruto dos processos de descolonização, em 1957 inicia com seis estados-membros um acordo de livre comércio que se prolongará até 2013 com a adesão da Croácia como 28 estado-membro da atual União Europeia. Todo este processo de integração, num conceito quase federalista da governação de estados e de um certo supranacionalismo, teve necessariamente de partir muita pedra, de ter uma ampla base de respeito pelas idiossincrasias culturais e históricas de cada estado-membro para que este união fosse uma realidade.

A Europa, criou um território amplo, com variadas nacionalidades, com 24 línguas oficiais, várias confissões religiosas, uma população de aproximadamente de 510 milhões de cidadãos, onde se subscreveram vários tratados, constituíram representantes com legitimidade representativa, onde dos 28 estados-membros 18 criaram uma moeda própria, onde 22 estados-membros criaram um espaço comum de circulação livre, formalizado pelo já citado Tratado de Schengen, onde se legisla temas de comércio e justiça de forma conjunta e onde o objetivo último é criar a livre circulação de pessoas, bens, capitais e serviços.

Este pioneiro projeto de cariz económico-social, abarcando a região onde pontificam as mais provectas nações do Mundo, não pode ficar refém de uma certa islamofobia, como e bem aborda o Prof. Adriano Moreira no seu mais recente artigo no DN. Este estado de alma, presente em alguns europeus e, mais temerariamente vivo em muitos dos seus lideres partidários e até governantes, criou um retrato de indiferença perante cenário tão dantesco que assistimos quotidianamente junto do Mediterrâneo e dos países da fronteira oriental sul da UE.

Esta Europa que assiste a compasso ao flagelo humanitário dos refugiados do Médio Oriente, não é certamente a Europa dos valores consagrados que a fizerem até hoje num exemplo moral para outras nações, nem tampouco é a Europa de grandes estadistas do passado como Adenauer e Schuman, congregadores de vontades e criadores de pontes entre os povos. Urge que os nossos estadistas atuais se reposicionem perante as verdadeiras necessidades e oportunidades da Europa e não sucumbem perante o populismo da islamofobia, pois a sua deferência perante as preces dos oprimidos, sejam eles provenientes donde forem, dá-nos a superioridade moral para nos mantermos na vanguarda dos direitos humanos e civis, como até aqui tem sido tradição.

Não há outra opção.

O fechar das nossas fronteiras, do incitar ao ódio e à islamofobia, é acender um rastilho da instabilidade, da intolerância, de pactuar com a praxis daqueles que censuramos nos territórios em guerra. Há muitos que do lado da extrema-direita aguardam impacientemente pelo melhor pretexto para empreendermos uma “guerra santa” contra o infiel muçulmano, mas as nossas armas do presente são outras e pacíficas. A política, o civismo e o humanismo não se praticam esperando retorno algum, mas sim deixando-nos de consciência limpa de termos praticado o bem.

Neste triste e histórico episódio dos refugiados da Síria, só aguardo pela coragem dos líderes europeus de dizerem sim perante os mais necessitados, estes caso assim o entendam, farão a sua justiça e reconhecimento de quem lhes estendeu a mão!

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