25 Outubro 2015      09:50

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O DELOREAN, MARTY McFLY E OS PARADOXOS TEMPORAIS

Como o sabem os caros leitores, sobretudo os que tiveram a sorte de nascer no fim dos anos setenta e de ter sido pré-adolescentes no fim dos anos oitenta, no dia 21 de outubro 2015, Marty Mc Fly, protagonista da trilogia de filmes Regresso ao Futuro, chegou no DeLorean com seu amigo Doc (Emmet Brown) e a sua namorada, Jennifer.

Esta efeméride, esperada há trinta anos pelos fãs do filme, foi celebrada, inclusivamente pelos próprios atores Michael J. Fox e Christopher Lloyd, que chegaram, na passada quarta-feira ao programa de Jimmy Kimmel no referido veículo.

Em todos os filmes da trilogia, diversas personagens fazem viagens no tempo. No primeiro filme, Marty, adolescente de 17 anos em 1985, viaja até 1955, altura em que vai interagir com os seus pais, também adolescentes. No segundo episódio, Marty e Jennifer, viajam até 2015 para evitar que os seus filhos tenham problemas com a justiça e, no último, Marty visita um dos seus antepassados, Seamus McFly, no ano de 1885.

É claro que antes de procederem a essas viagens todas, Doc realiza uma experiência com o seu cão, Einstein, enviando-o só numa expedição de um minuto até ao ano de 1955. Portanto, durante um minuto, o cão deixou de existir neste mundo tal como o conhecemos.

No entanto, Marty, quando viaja até 2015 (no segundo episódio) encontra-se com uma versão de si mesmo com quarenta e sete anos, o que não faz sentido porque, se deixou de existir em 1985, durante o lapso do tempo em fez a viagem ao futuro, também não poderia existir no futuro e muito menos ter filhos. Estamos então perante um paradoxo, já que a não-existência no presente inviabiliza a existência no futuro e, logicamente, toda e qualquer descendência.

No entanto, ignorando esse pormenor, o realizador Robert Zemeckis, torna possível que, ao longo da trilogia, Marty, Jennifer, Biff e Doc se encontrem com várias versões de si mesmos, chegando Marty a encontrar-se com um duplo de 1985 em 1955, por ter feito duas viagens ao passado (uma no primeiro episódio e outra no segundo), e o Doc de 1985 com dois, um de 1955, que ajuda Marty a regressar a 1985 e outro de 1985, que levou Marty de volta até essa data para reparar um erro do passado (que teve na sua origem um almanaque do futuro).

Na verdade, nos filmes sobre viagens no tempo existem diferentes maneiras de conceber o impacto que as mesmas podem ou não ter no passado. Por exemplo, em filmes como Terminator, a cronologia é fixa, o que significa que o que quer que faça o protagonista não vai conseguir mudar o futuro. No caso de Regresso ao Futuro, verdade seja dita, a conceção de Zemeckis é particularmente engenhosa.

Com efeito, na sua trilogia, criam-se universos ou realidades paralelas, daí ser possível que os protagonistas se encontrem com os seus duplos e que exista um 1985 alternativo, em que o pai de Marty morreu e em que Biff casa com a sua mãe.

Ademais, existe outra modalidade, a linha de tempo dinâmica, em que os acontecimentos do passado alteram o futuro. Por exemplo, no segundo episódio da trilogia, Marty evita que o seu filho vá para a prisão, alterando assim o desenrolar dos acontecimentos. Portanto, em Regresso ao Futuro, podemos dizer que se mesclam tanto a criação de universos paralelos como é criada uma linha do tempo dinâmica em que as ações do passado se repercutem no presente e no futuro, dentro do mesmo universo temporal.

Mas na verdade, nem todos os paradoxos são evitados e assinalamos outro: o paradoxo do escritor. No fim do primeiro episódio, George (pai de Marty), em 1955, graças à influência do próprio filho, toma uma atitude drástica e enfrenta Biff, mas como Marty nesse ano não existia, é patente uma circularidade nas relações de causalidade, em que no fundo, o pai de Marty nunca podia ter mudado de atitude com a ajuda do filho porque o filho simplesmente ainda não existia. Outro exemplo, Marvin Berry, estava a tocar no baile de finalistas dos pais de Marty (no primeiro episódio) e deu a ouvir ao seu primo Chuck Berry a música que Marty estava a tocar: Johnny B. Goode, dando-lhe assim a ideia do tema que seria posteriormente um dos seus maiores êxitos.

Contudo, apesar da existência de tais paradoxos, Zemeckis conseguiu realizar uma trilogia que ficou para a história e que, mais de trinta anos após a realização do primeiro episódio, continua a levar-nos a discutir os paradoxos temporais apresentados. Mas descansem que, apesar dos receios de Doc, o universo ainda está a salvo.

 

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