30 Agosto 2015      15:25

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JOÃO MATEUS, O SR. PCTA

O Made In Alentejo foge hoje à regra (elas existem para isso) e em vez de um empresário, ideia ou empresa do Alentejo, entrevista alguém que trabalha com empresários, ideias e empresas, várias e ao mesmo tempo. Falamos de João Mateus, Director Geral do PCTA,  o Parque de Ciência e Tecnologia do Alentejo. Tem 36 anos, é economista e especialista em "Cluster Tecnológicos", natural de Lisboa, amante das viagens, da leitura e de correr. Iniciou a sua carreira em multinacionais e passou pelos corredores do poder no XVIII Governo Constitucional. Foi uma conversa descontraída, tida entre máquinas em movimento e ruídos de trabalhos em obra. É que está para breve a inauguração do novo edifício do PCTA.
 
Tribuna Alentejo - Em que circunstâncias começou a lidar o sector empresarial e de que forma ele o atraiu? E como foi chegar até ao PCTA?
 
João Mateus: Para além do apoio ao meu pai durante as férias grandes de verão enquanto estudante, realizei um estágio de verão numa multinacional no penúltimo ano da Faculdade. Integrei os quadros dessa empresa imediatamente após a finalização da licenciatura. O início da carreia em multinacionais permitiu-me ter um conhecimento profundo e profissional de gestão de empresas, mas também criar um contacto direto com parceiros e clientes. Desde muito jovem que tenho interesse pelo mundo empresarial e um pensamento dirigido para a criação de valor acrescentado e na ambição de encontrar soluções.
 
Após a passagem por várias experiência profissionais, fui abordado pela Universidade de Évora através do Sr. Vice Reitor Manuel Cancela d`Abreu para o apoiar na criação e no desenvolvimento do PCTA. O projeto estava numa fase muito embrionária e tinha problemas difíceis de resolução no curto prazo, mas com uma elevada ambição. A minha dissertação de mestrado teve como tema os “cluster tecnológicos”. Para a elaborar estudei, analise e visitei alguns parques nacionais e internacionais.
 
Para além disso, a minha passagem por Gabinetes ligados à inovação ajudaram-me na conceção de uma visão de desenvolvimento que julguei poder ser util à materialização do PCTA e ao apoio da região do Alentejo, para que esteja possa ser mais competitiva. Quando cheguei ao Alentejo percebi que é uma região magnífica e com elevado potencial, por vários motivos, mas com pontos fracos tais como a falta de população residente com qualificações e uma estrutura empresarial rarefeita. Estes 2 efeitos em conjunto dificultam em muito o desenvolvimento de uma região. Uma região para ser desenvolvida necessita de criar riqueza, de preferência com base em bens transacionáveis e de valor acrescentado.
 
É impossível fazer-se o que se quiser sem pessoas! O PCTA não é o salvador de todo, mas é uma infraestrutura que pode e já está a ajudar a inverter o cenário base. Um Parque de Ciência e tecnologia tem vários objetivos de onde destaco a transferência de tecnologia, o estímulo ao empreendedorismo, a captação de investimentos e o estímulo contante de construções de cooperação e rede entre instituições com vista à inovação. Com a atividade já realizada conseguimos atrair empresas, consequentemente mantivemos e captamos recursos humanos qualificados e já temos produtos e serviços inovadores que são exportados.
 
  
Tribuna Alentejo: Como descreveria o PCTA neste momento?
 
João Mateus: Neste momento o PCTA tem 38 empresas, mas este número pode aumentar a qualquer momento. Apesar da nossa curta existência, no início de cada ano enviamos um questionário às nossas empresas e os resultados no final de 31 de Dezembro de 2014 foram os seguintes: Tínhamos 30 empresas, o Universo PCTA representavam 1239 colaboradores dos quais tínhamos contribuído para a criação direta de 170. Em termos de volume de negócios acumulados em 2013 e 2014 (anos em trabalhamos a nossa atividade no terreno), o volume de negócios foi de 77 milhões de euros dos quais cerca de 30% se destinaram à exportação para os mercados europeu, Moçambicano, República Dominicana, África do Sul, Chile, Brasil, Angola, Cabo Verde, Emirados Árabes Unidos, México, Estados Unidos da América e Tanzânia. O Universo dos colaboradores do PCTA são na sua maioria altamente qualificados e cerca de 85% têm menos de 40 anos de idade. No aglomerado em 2014 foram pagos mais de 17 milhões em salários e de 13 milhões em impostos. Gostaria de realçar a captação do investimento da GLINTT ENERGY num parque fotovoltaico de concentração num investimento orçado em 5 milhões de euros e a captação da CAPGEMINI com um centro de excelência que a médio prazo criará mais de 150 postos de trabalho qualificados.   
 
 
Tribuna Alentejo: Como é o dia-a-dia do Director Geral do PCTA?
 
João Mateus: Os dias são todos diferentes! O PCTA tem uma estrutura minimalista, o que aumenta a dificuldade face às variadas atividades que temos e à ambição do projeto. Decidimos pensar grande, começar pequeno e crescer rápido e este tem sido a nossa linha motriz de atuação. De entre as diversas atividades possíveis destaco o apoio às empresas existentes, a captação de novas empresas, a gestão do PCTA e a deteção de oportunidades com a tentativa de respostas reativas e rápidas, que nos permitam atingir os objetivos com eficiência.
 
Tribuna Alentejo: É natural de Lisboa, estuda em Lisboa e começa a trabalhar em Lisboa. Como entrou o Alentejo no seu percurso?
 
João Mateus: A vinda para o Alentejo deu-se com o convite efetuado pela Universidade de Évora através do Sr. Vice Reitor Manuel Cancela d`Abreu para o apoiar na criação e no desenvolvimento do PCTA. Verifiquei que o Alentejo dispõe de um conjunto de oportunidades muito interessantes, que têm de ser rentabilizadas, mas também um conjunto de pontos fracos que têm de ser investidos.
 
Já referi que a falta de população residente qualificada, a pirâmide etária invertida e uma estrutura empresarial rarefeita e com pouca iniciativa cooperante são bloqueios ao desenvolvimento. O PCTA está a apoiar nesta mudança com a fixação de recursos humanos qualificados e com apoio à cooperação e às parcerias empresariais e com a ajuda na criação/captação de novas empresas. Creio que a excelente localização do Alentejo, com a proximidade com Lisboa e Espanha, aliada a boas rede de transportes e comunicação são um fator muito importante. Acredito que os bons recursos humanos formados na região, com apoios direcionados ao empreendedorismo ou com projetos empresariais, inovadores e ambiciosos, apoiam na fixação de pessoas qualificadas na região.
 
O Alentejo tem um clima muito interessante, muitas zonas culturais e de lazer, uma gastronomia fantástica, uma paisagem apaixonante e gente acolhedora e simpática que elevam a qualidade de vida dos residentes. A existência de fundos de apoio ao investimento ajudam a alavancar a atração, o crescimento rápido e a ser um “isco” na captação de investimentos, que têm de estar associados aos outros argumentos já referidos. A minha adaptação ao Alentejo não foi difícil, apesar de sentir que era fácil a simpatia, mas algumas vezes difícil a operacionalidade. Passo a maior parte dos dias da semana no Alentejo, alguns fora na tentativa de agilização e captação de investimentos, mas a minha residência oficial continua a ser Lisboa. No entanto é muito fácil viver e estar no Alentejo, sem dúvida tem outro tempo e sabor!
 
Tribuna Alentejo: O que espera, em termos de resultados, de um PCTA em pleno funcionamento?
 
João Mateus: O PCTA é um projeto, que se correr dentro da linhagem que pretendemos, nunca terá fim! Neste momento estamos em 2 frentes mais visíveis: Infraestrutura física, captação e apoio às empresas e transferência de tecnologia. Mesmo quando terminarem todas as fases de expansão das infraestruturas físicas, as outras variáveis têm sempre muitos desafios e trabalho. O trabalho baseado na inovação é inesgotável. Em termos de resultados, pretendo ver um PCTA em constante crescimento com empresas e de criação de valor garantindo a sustentabilidade e o sucesso das mesmas. O sucesso do PCTA num limite é o sucesso das suas empresas! Com isto pretendo assistir a um aumento do número de pessoas na denominada “Família PCTA” (são os colaboradores das empresas) e contribuir para o aumento de pessoas qualificadas a residir no Alentejo. 
 
 
Tribuna Alentejo: Afinal o que distingue o PCTA das demais incubadoras de empresas do Alentejo e como são feitas as pontes entre as inúmeras entidades empresariais com que se relaciona o PCTA?
 
João Mateus: O PCTA diretamente não tem nenhuma incubadora. O PCTA é a entidade pivot do Sistema Regional de Transferência e Tecnologia (SRTT) que pretende, de uma forma genérica animar a rede, fomentar a cooperação, incentivar a transferência de tecnologia e ajuda a identificar e a aproveitar as oportunidades. Criámos um sistema de monitorização onde estamos todos em rede, mas temos encontros presenciais com regularidade. Nesta rede, estão por exemplo as instituições de ensino superior, de investigação e desenvolvimento (I&D), as incubadoras de base tecnológica e os parques industriais. Nesta rede de incubadoras existe uma que está fisicamente no complexo do PCTA que é a ÉvoraTech.
 
 
Tribuna Alentejo: O que faz falta ao Alentejo?
 
João Mateus: O Alentejo tem todas as condições para ser a região de Portugal com uma maior taxa de crescimento nos próximos anos. Para isso é fundamental uma estratégia, a aposta clara em áreas e projetos (não podemos voltar a apoiar tudo e todos, são necessárias decisões!) e ter uma postura proactiva ou seja, não esperar que as coisas aconteçam por si, mas ir à procura das oportunidades com respostas “feitas à medida” e rápidas. Acredito que está a ser feito um trabalho para conseguir contrariar a escassez e fuga de recursos humanos, onde o PCTA é uma das variáveis de apoio à fixação. Quanto ao envelhecimento da população, é uma realidade, e deve ser vista como uma oportunidade. Para terminar num “tom” fora do PCTA, lanço uma visão e um desafio: porque não nos especializarmos na saúde da 3ª idade, aliado a um pacote integrado de serviços (residencial, cultural,…) que nos consiga transformar numa referência para captarmos “séniores” de outras nacionalidades que pretendam passar os seus últimos anos de vida com uma elevada qualidade de vida numa das regiões mais fantásticas do mundo?
 
Créditos: As imagens foram cedidas pelo entrevistado.
 
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