23 Outubro 2015      11:18

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A INFINDÁVEL RIQUEZA DOS FIGOS-DA-ÍNDIA

Chama-se Teresa Laranjeiro e vive no Vimieiro há 15 anos, de onde gere três empresas: a Sobremesa da Vida, que se dedica à produção de figos-da-índia, a CactusExtratus, que se dedica à sua transformação e a Chá-Bravo, destinada à produção de ervas aromáticas. Fomos conhecer melhor estes projetos e esta verdadeira empreendedora. 

Tribuna Alentejo – Em 2000 mudou-se de Lisboa para o Alentejo e não voltou a mudar-se desta região. O que esteve na base desta mudança?

Teresa Laranjeiro – Desde muito pequena que tinha um sonho de ter uma quinta. Em 2000 cruzei-me com a quinta no Vimieiro e desde logo fiquei encantada com ela. Foi a realização de um sonho antigo conjugada com o encantamento que a quinta exerceu sobre mim. De facto, quando decidi que estava na altura de ir viver para uma quinta, defini um raio de 60 km à volta de Lisboa, mas depois de quase dois anos a ver quintas sem que nenhuma me encantasse, decidi alargar o perímetro e foi quando fui ver esta quinta que logo me encantou.

Tribuna Alentejo – Qual era a sua relação com o Alentejo até então?

Teresa Laranjeiro – Conhecia o Alentejo mas não tinha qualquer relação com essa região. Tinha por hábito ir passar férias na costa alentejana e os meus pais tinham tido uma quinta em São Brissos, mas, de facto, não tinha qualquer relação. Foi mesmo o facto de ter ficado encantada com esta quinta que me fez vir para cá.

Tribuna Alentejo – E com os figos-da-índia ou com as ervas aromáticas?

Teresa Laranjeiro – Efectivamente, antes de ter decidido começar com a cultura de figos da índia, tinha uma vaga ideia do que era esse fruto através de uma vez em que fui visitar o Jardim da Colónias e o guarda me tinha dado a provar esse fruto. Nessa altura, não fiquei com grande impressão do fruto. Mas em 2011 estava decidida a encontrar uma cultura que me permitisse pagar, pelo menos as depesas da quinta e que não fosse demasiado exigente em termos de intervenções no meio natural, mas que fosse inovadora – não queria fazer alguma coisa que já toda a gente estivesse a fazer. Foi então que, no âmbito do meu trabalho de informática, me cruzei com um projeto no Proder para a plantação de figueiras da índia. Na altura, a minha reação foi de estranheza – quem será o louco que se vai pôr a cultivar cactos!? Mas ... como andava à procura de uma cultura diferente, comecei a pesquisar a figueira da índia. Claro que cheguei à conclusão de que não se trata de nenhuma loucura, bem pelo contrário, faz todo o sentido, dadas as milhentas aplicações que esta planta e fruto têm. Então, não só decidi fazer a plantação como também achei que fazia todo o sentido instalar uma fábrica que faça a transformação dos frutos que não são vendidos para fruta de mesa.

Relativamente às plantas aromáticas, foi um processo um pouco diferente. Inicialmente, as pessoas à minha volta diziam-me “porque não fazes aromáticas?” e eu respondia “parece-me que já há muita genta a fazê-lo” mas depois vi uma reportagem na televisão em que se dizia que havia falta de produtores, como andava a tentar diversificar para “não pôr todos os ovos no mesmo cesto”, achei que se calhar afinal não havia assim tanta gente já a fazer aromáticas e que talvez houvesse mesmo mercado para mais um produtor. Assim, decidi ocupar uma parte da quinta a produzir aromáticas e instalei 3 hectares. De qualquer maneira, tentei implementar um sistema um pouco diferente daquele que a maioria dos produtores estavam a fazer e decidi que a maior área da minha plantação haveria de ser feita sem tela e em sistema preferencialmente de sequeiro.

Tribuna Alentejo – Como surgiu a ideia de criar estas empresas? Fale-nos um pouco de cada uma delas.

Teresa Laranjeiro – Depois de ter decidido o que queria fazer na quinta, colocou-se-me a questão de como financiar os investimentos. Tendo tomado conhecimento dos apoios à instalação de plantações dados aos jovens agricultores, abordei os meus filhos para saber se eles estariam interessados em “embarcar” comigo nestas aventuras e a receptividade deles não poderia ter sido melhor. Embarcaram nos projectos com todo o entusiasmo e foi assim que criámos as duas empresas, a Sobremesa da Vida para a plantação dos figos da índia com a minha filha e a Chá Bravo para a plantação das aromáticas com o meu filho. Já a CactusExtractus resultou de um desafio que lancei a uma amiga que também estava muito interessada em empreender em projectos diferentes.

Tribuna Alentejo – Até que ponto o seu percurso profissional anterior foi importante para se aventurar nestes projetos? Acha que foi importante ou que há aspetos mais importantes para se ser empreendedor?

Teresa Laranjeiro – Acima de tudo, acho que se tratou de uma conjugação de vários factores concorrentes entre si. Por um lado, sempre fui bastante voluntariosa e sempre tive alguma dificuldade em aceitar as coisas tal como me eram apresentadas. Sempre tive a necessidade de acrescentar alguma coisa pessoal a tudo o que fiz na vida. Por outro lado, a vontade de fazer alguma coisa de diferente e ainda a necessidade de fazer com que a quinta gerasse recursos que permitissem mantê-la autonomamente. Acresce que o facto de ter alguma formação e experiência de gestão também deu alguma ajuda para tentar perceber se as aventuras em que estava a entrar tinham ou não probabilidade de se concretizarem.

Tribuna Alentejo – Como é um dia de trabalho “normal”? Como organiza a sua agenda de forma a conseguir “dar conta” de tudo?

Teresa Laranjeiro – Não é fácil organizar a agenda. Há sempre mais coisas para fazer do que tempo para as fazer. É muito importante poder contar com o apoio de amigos e dos meus filhos. Trata-se de uma ocupação de tempo à qual é preciso dedicar praticamente todas as horas do dia. Como se pode ver pela hora a que estou a responder a esta entrevista – 23h30m – o tempo nunca chega para tudo o que é preciso fazer. Se não fossem os meus filhos e os amigos que me vão dando apoio, acho que não conseguiria.

Tribuna Alentejo – Quem são os principais clientes destas empresas?

Teresa Laranjeiro – Em qualquer das empresas estamos a tentar chegar sobretudo ao consumidor final para, enquanto temos pouca quantidade de produtos, optimizarmos a facturação. No entanto, temos estado já a abordar alguns clientes de outras indústrias como seja a indústria cosmética para o óleo de sementes de figo da índia, as geladarias e restaurantes para a polpa de figo da índia, os produtores de sabonetes e de cosmética para os óleos essenciais, bem como, nestes últimos produtos, as ervanárias e pontos de venda de produtos homeoopáticos. No caso da polpa de figo da índia estamos também a iniciar o lançamento de uma acção comercial junto dos distribuidores para comercialização de uma linha para o consumidor final.

Tribuna Alentejo – Como podem entrar em contacto consigo?

Teresa Laranjeiro – Nós temos presença na Internet através do facebook – CactusExtractus e Chá-Bravo e temos um site www.cactusextractus.com e www.sobremesadavida.com

Tribuna Alentejo – Há algum conselho que sinta que possa dar a outras mulheres, sobretudo no Alentejo, que tenham uma ideia de negócio mas sintam receio de avançar?

Teresa Laranjeiro – A minha convicção é de que quando uma pessoa tem receio de avançar é porque não está preparada para entrar numa aventura destas. Havendo receio, o melhor é avançar para coisas mais certas e já comprovadas. De qualquer maneira, uma das coisas que me deu muito alento foi o contacto com algumas instituições existentes no Alentejo, nomeadamente o Monte ACE, a ADRAL e o NERE que têm iniciativas muito louváveis no apoio a quem está a lançar novos projetos.

Tribuna Alentejo – Onde imagina que este negócio possa chegar? Que caminhos ainda estão por trilhar?

Teresa Laranjeiro – Confesso que o meu sonho é que um dia os figos da índia possam gerar um movimento equivalente àquele que a Delta gerou. Gostava muito que os figos da índia viessem a contribuir para o combate à desertificação, para o aproveitamento de terras que estão paradas, ao mesmo tempo que ajudam na recuperação desses mesmos solos. Os figos da índia podem gerar muitos empregos seja na época da colheita, seja noutras actividades com eles relacionadas. Por outro lado, tem vindo a haver investigação relativamente a outros aproveitamentos que podem ser feitos com esta produção, por exemplo, para a produção de bio combustíveis. Acresce que ainda muito pouco foi feito no que respeita à utilização das palmas que podem ser consumidas como legume e com as quais já há um produtor a fazer gelado e queques. Há ainda tanto que pode ser feito! Estamos só no princípio!

De qualquer maneira, já se vão vendo alguns resultados como por exemplo, o aparecimento de uma máquina para a limpeza dos figos e de uma ceifeira para a colheita de aromáticas ambas produzidas em Portugal.

Segunda imagem daqui, Restantes imagens fornecidas pela promotora.

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