21 Novembro 2015      10:39

Está aqui

A ALMA

Duas crianças estão sentadas numa sala vazia, onde só está um televisor desligado e dois copos de água. As duas crianças olham ao seu redor. Uma, a primeira, se assim podemos contá-la, olha as paredes despidas. A outra, a segunda, olha pela janela, por onde entram alguns raios de sol, tímidos, mas determinados na sua essência, acinzentados por aquelas nuvens que escondem o Sol como o corpo esconde a alma. As paredes dessa sala vazia estão despidas. Não se vê nelas um rumor, nem a ponta de vida do quadrado que é esta sala.

A primeira criança, sentada no meio da sala, virada de costas para a segunda, olha as paredes e imagina na sua cabeça, inocente de criança, um mundo colorido. Vê todas as cores do mundo como se não estivesse lá uma parede, como se aquele branco fosse transparente e deixasse que o mundo fosse toda aquela sala e descobrisse a alma. As paredes que a rodeiam não a aprisionam, pelo contrário, libertam-na pois soltam toda a imaginação e permitem-lhe que veja aquilo que, nós, adultos, não vemos.

Esta criança, uma qualquer criança, nesta sala ou em qualquer lado do mundo, não vê paredes nem vê esse mundo fechado, pleno de ódio e vingança que é o que, efetivamente, está fora das paredes. Esta alma senta-se só, concentrada naquilo que há de bom no mundo e vê as cores do amanhecer, observa e ouve, cuidadosamente, as histórias que lhe contam todos os dias. Na sua visão, todas as histórias são projetadas nas paredes. São elas que lhe desenvolvem o mundo e que fazem a sua capacidade de sonhar melhorar a cada dia. A criança fantasia o mundo. Nas paredes, a criança, parada a olhar, vê, agora, uma estrada que é feita de água onde nadam golfinhos, saltam peixes voadores e as linhas, marcadas a branco, são tiras de algodão doce que definem as linhas do sonho. Na outra parede, vê-se uma floresta em diversos tons de verde, onde os frutos são maçãs caramelizadas e as flores são tão doces que caem e adornam fontes, fontes onde corre chocolate sem parar. As torres, nos montes de caramelo, são grandes ventoinhas que servem para brincar e os carros são o transporte para esse mundo que cabe numa sala vazia. Nós, adultos, não veríamos mais do que uma sala sem nada.

Todavia, uma criança numa sala vazia onde está um televisor desligado e dois copos de água passa a ser num novo continente, transforma-se em oceanos e em sítios que são seguros e onde não há terror, nos seus sonhos. Não há medo nos pensamentos inocentes da alma. Nessa sala vazia, onde as paredes são toda a vida e a criação de uma criança, a primeira olha fascinada para o mundo que construiu e acredita que ninguém vai destruir. Ah, como se engana a pobre inocente alma! Não sabe que o mundo lá fora lhe arrastará os sonhos para um poço sem fundo. Não compreende porque são os crescidos que se afastam e eliminam os sonhos, porque são eles que, numa mesma sala, não veem o mesmo mundo.

As paredes seriam o medo e o terror; as paredes seriam o ódio daqueles que não se compreendem e que se esqueceram da alma; as paredes somos todos nós que nos impedimos de ver além do que é. Nunca vemos o que poderia ser.

Há, por isso, em meu entendimento, dois mundos, aquele de duas almas em tenra idade que veem o que deve ser e há o mundo que nós fazemos e permitimos que haja, onde nem o sonho entra nem o medo é contido. O nosso é um mundo cinzento que não se compadece com sonhos ou com gritos de socorro. Existe e pronto!

Ao longo dos anos, da tenra idade aos anos da velhice, permitimos que os copos de água fiquem vazios, a televisão interrompa o silêncio e que as paredes se alterem e se tornem mais frias, onde a tinta desaparece e o bolor tudo corrói. Nessas paredes, os sonhos e os sorrisos são substituídos por medos e lágrimas. A parede, imaginada transparente, é manchada pelo bolor do medo e da ira.

E no fim, restar-nos-á, como dizia o poeta, que tudo vale a pena quando a alma não é pequena, procurar essas almas grandes que se encontram ainda escondidas algures no universo do mundo perdido das crianças, as almas grandes de corpos pequenos que sobrevivem no olhar como aquele da segunda criança que olha pela janela e vê os raios de Sol no céu cinzento. Ela vê a realidade. Vê o mundo nos raios do dia porque a janela é o mundo que efetivamente existe e acredita que será esse mesmo mundo que se transformará num sítio melhor.

Ela sabe e nós sabemos que, enquanto aqueles dois copos de água na sala subsistirem cheios, as crianças serão o reflexo dos sonhos. No televisor desligado ficarão as más notícias, o medo e o horror, esquecidos e ignorados pelas almas inocentes. 

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