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Memórias

TINHA A MANIA DOS VERBOS

O marafado do gaiato era esperto e ligeiro como as cobras. Andava sempre à cata de conseguir saber mais e de fazer melhor. O marafado do moço, ou o moço marafado, era da cidade. Tinha a esperteza e a sageza de quem convive há muito com o desenrascanço. Podia ter-lhe dado para pior, podia não saber muito na escola. Mas tinha a escola da vida.

O CESTEIRO

As mãos do Ti Feliciano Costa eram envelhecidas e gastas pelo tempo. Eram mãos deformadas pela artrose e gretadas do frio e do trabalho. Os seus dedos, grossos, já não se endireitavam. A imagem mais clara que tenho de si é a de um homem envelhecido, cansado, curvado pelo tempo, que se sentava numa cadeira de madeira em frente à porta da velha casa de taipa, ao lado da ribeira, onde a mesma curvava e que passava a tarde a manusear o vime, fazendo cestos de todo o feitio.

O MOLEIRO

Estive, no passado sábado, no aniversário de uma Escola (Antero de Figueiredo-Farmingville) que, durante a festa, professoras e alunos nos apresentaram profissões extintas ou em vias de extinção em Portugal.  Tive, aí, o enorme gosto de recordar antigas profissões que, algumas conheci, outras nem tanto, pela distância em que eram exercidas ou pela não existência desde que me conheço como pessoa.

O TALEIGO

ta·lei·go 

(árabe ta'lîqa, saco, bolsa)
 

substantivo masculino

1. Saco longo e estreito.

2. Cesto ou saco para transportar comida.

"taleigos", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://www.priberam.pt/dlpo/taleigos [consultado em 05-01-2017].

 

PAPAS DE MILHO

Estes dias frios de Inverno que agora se aproximam trazem-me à memória aquelas noites meio frias da minha infância, quando ainda não tínhamos eletricidade em casa. Devia ter aí uns cinco anos. Naquele tempo, anos 80, ainda muitas infraestruturas estavam por construir nos perdidos montes da Serra do Caldeirão.

HÁ ALGUMA COISA DE ESPECIAL NOS ALENTEJANOS (?)

Eu não sou sociólogo. Sou antes, uma espécie de “nómada intelectual”. Daqueles que “não têm história, têm uma geografia e essa geografia, que tem lugar no «espaço plano» das estepes, escreve-se por meio de uma «linha criativa de fuga» caracterizada pela rapidez, uma rapidez «fora da lei», mas no fluxo, fora do âmbito da «máquina racional administrativa», seguindo as correntes de energia”, como diz Kenneth White, roubando palavras a Deleuze (1987. O Espírito Nómada. (L. Mendonça, Trad.) Deriva.). Da mesma forma que passo a vida a amar as pessoas à distância, forçado pelas despedidas que me provocam. Chocado pela falta que me fazem. Passo os dias no entretanto, no caminho entre a ida e a volta, ou no regresso.

ENTRE PARALELOS

A nossa vida, a de todos e de cada um, faz-se entre paralelos. Tudo começa e acaba numa latitude. Toda a nossa existência percorre latitudes, longitudes, paralelos e meridianos. Algumas até desenrolam-se entre trópicos, atravessando a linha do equador uma ou muitas vezes. Cada paralelo, cada ponto longitudinal é diferente do outro. Aliás, cada metro e cada um de nós é diferente. Nunca até hoje vi duas rochas iguais. Nunca até hoje senti que a água passasse duas vezes no mesmo sítio como já os sábios gregos antigos notaram.