27 Maio 2017      00:47

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TINHA A MANIA DOS VERBOS

"PARALELO 39N"

O marafado do gaiato era esperto e ligeiro como as cobras. Andava sempre à cata de conseguir saber mais e de fazer melhor. O marafado do moço, ou o moço marafado, era da cidade. Tinha a esperteza e a sageza de quem convive há muito com o desenrascanço. Podia ter-lhe dado para pior, podia não saber muito na escola. Mas tinha a escola da vida.

O marafado do gaiato chamava-se Tiago e era daqueles moços que vivia à beira-mar, em Portimão. Conhecia a pesca já bem e pescava em pensamentos as sardinhas e os carapaus que o pai e os tios pescavam na realidade. Andava na escola. Na quarta classe. E aquela cabeça era cheia de sonhos e idealizações frenéticas, próprias da idade de um gaiato à beira do oceano. Muito gostava o Tiago de agarrar na pedaleira, descer com ela no elevador do 6º andar onde moravam, correr as ruas pedalando e chegar ao fim da cidade, já nas meias com a próxima e voltar atrás.

Enquanto pedalava, Tiago ia repetindo na cabeça o verbo de uma coisa que vira para si, mesmo, para não se esquecer e para servir no exame do final do ano. Assim, dias havia em que o verbo cantar lá saltava à ideia e olhando as ondas do mar, pedalando à beira das falésias baixas, continuamente eu canto, tu cantas, ele canta, nós cantamos, vós cantais, eles cantam e no regresso, o pretérito perfeito, eu cantei, tu cantaste, ele cantou, nós cantámos, vós cantastes, eles cantaram e, antes de o sol se pôr e de ir esperar o pai à lota, depois de mais um dia e uma noite no mar, lá contava toda a cantiga dizendo que eu cantava, tu cantavas, ele cantava, nós cantávamos, vós cantáveis, eles cantavam. Ainda dizia a segunda pessoa do plural mas já cantava sozinho.

No olhar do pai, o orgulho de ver o filho a aproximar-se. Entre o cheiro das sardinhas, algumas moscas que se atreviam a entrar ainda na frescura do pescado, uma palavra, anda cá campeão. O que fizeste hoje? Correu bem a escola? Já aprendeste muito. E o filho lá dizia, eu estudei, tu trabalhaste, ele olhou e todos se riam. Tinha piada o moço marafado.

Mas nem sempre a vida lhe corria conforme e dias havia em que a mãe lhe batia, palmadinhas de amor, vá. Não sejamos exagerados. E lá o Tiago, entre lágrimas, a ouvir o ralhete, ia pronunciado os verbos, eu choro, tu bates-me, eu porto-me, tu ralhas-me. E a mãe, mesmo não querendo, enchia-se lhe o coração de compaixão e lá amaciava a mão e o pêlo do gaiato ficava mais aliviado.

Isso não vale a pena lembrar, Tiago na hora seguinte já declamava poesia em jeito de tabuada e cantava o verbo alegrar, reflexo também daquilo que sentia. O que ele gostava mais era mesmo de sardinha no pão, gordinha e quente. Tendo pai pescador, estava facilitada a tarefa e podia saborear. No final de cada refeição, em que as sardinhas se faziam acompanhar por uma salada montanheira, à moda de Monchique, terra da mãe, batatas com orégãos, alho e azeite e as sardinhas em si, lá toda a família pedia ao marafado do gaiato que contasse lá outra vez aqueles verbos e, dizendo ao calhas, lá viam o seu gosto satisfeito de ouvir Tiago a declamar verbos em forma de poesia. Talvez nem tivessem forma de saber se aquilo era correto, mas dava-lhes gosto em ouvir só que fosse pela sonoridade de quem já tem tanta arte e só tem aquela idade.

E, em todo o momento, mesmo sem grandes artimanhas, se pode encontrar arte, desde que haja talento. Tiago tinha já aquilo meio decorado, mas improvisava e, no seu pensamento, as ondas do mar, os verbos navegar e pescar. E nos ouvidos e nos olhos do pai e da mãe, o orgulho de ter criado aquele moço marafado que cantava verbos como quem declamava poesia.

 

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