26 Fevereiro 2017      11:54

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SOMOS HISTÓRIAS

"INCONSTÂNCIAS"

Acho que em algum momento da minha escala de crescimento e desenvolvimento pessoal, no foro privado dos espaços interiores onde me vou calculando, a parte do meu cérebro que lidava com os “tanto faz”, que não se importava com as conversas de circunstância, que não se incomodava com a maldade mascarada de preocupação e princípios desligou e nunca mais voltou a funcionar. Ou isso ou a sociedade, compreenda-se em todos os seus níveis, conseguiu o excelente talento de retroceder ao avançar. – Devo confessar, compreendo. Devo confessar, quando compreendo não se torna mais fácil mas infimamente mais árduo.

Nunca fui vítima dessa ilusão de que se sofre que consiste em achar que conhecer a fronha de um individuo, seja ela a mais aberta ou a mais taciturna que já tenhamos visto, significa também e automaticamente conhecer esse indivíduo. Para mim conhecer alguém sempre foi mais acerca das palavras de que eles são feitos. Das palavras que formam as histórias de que eles são formados. – as histórias sempre lhes deram um rosto que não era propriamente o rosto físico deles e esse rosto apagava repentina e inevitavelmente aquele outro taciturno ou aberto.

Podemos ser muitas coisas, caro leitor. No espaço em que vivemos, ele mesmo um infindável paradoxo, não seria estranho se não fossemos nós mesmos antagónicos? Múltiplos, transitórios, falíveis. Mas imensos. Imensos como as histórias que nos contam e que nós contamos e que nos recusamos a contar porque ainda não é totalmente história mas ato. Porque há histórias que só se podem contar quando já não são ato, quando já não doem. Quando deixaram de si apenas a aceitação e a certeza de que foi melhor assim. De que, para quem nós fomos, que não é esse rosto que vemos no espelho, que os outros conseguem classificar, mas o outro materializado para além desse, foi melhor assim.

É esta a paz que o meu cérebro quis fazer. Acho que, quando se viu demasiado enrodilhado nos conceitos alheios de quem eu era, me resgatou e me convenceu que a partir desse momento eu e as histórias de que eu sou formada viveríamos em paz. E aprenderíamos que não há muito para além da paz a ser feito. – E quão difícil é realmente fazer paz, em nós e nos outros? Ainda conto os anos e não sei se eles chegam realmente.

Deixem as pessoas ser felizes. – É tão simples. É tão simples compreender que a vida já é demasiado complicada para que sejamos uns imbecis maldosos que precisam constantemente desse ridículo riso mesquinho e vazio, dessa atenção frívola, desvanecida de uma felicidade própria, de uma segurança pessoal. É tão simples deixar outra coisa de nós aos outros que não uma posição social que não é nós. É fachada. Para além do que nos dói e nos alegra ao ponto das lágrimas quase tudo é fachada.

Que cansaço! Que cansaço trago nos ossos e nas têmporas e nos suspiros repetitivos. Que cansaço trago do cansaço daqueles que não se deixam ser cansados. Que não se deixam cair uma vez por outra, que não admitem as lágrimas, que não conseguem dizer: hoje não sou nada. Hoje sou só história por acontecer. Que cansaço trago na esperança e no peito de todos aqueles que não sabem que é no cansaço que aprendemos a maravilha que é a humildade.

A humildade de reconhecermos a falibilidade da nossa condição. A humildade de envergarmos as nossas histórias mais doloridas, as nossas cicatrizes mais profundas e aceitarmos que em algum momento o outro também já doeu e o outro também teve que acariciar uma cicatriz.

Deixem as pessoas ser felizes. Nunca somos assim tão bons nem tão maus que possamos achar que a nossa história é melhor ou pior. Deixem as pessoas com as suas histórias: oiçam-nas ou ignorem-nas mas não tragam a guerra na voz para um espaço em que alguém é paz. Porque nenhum de nós tem o direito julgar o quão difícil foi ser aquela história.

Ser uma história.

Deixem as pessoas ser histórias e acima de tudo paz e satisfação nas suas histórias e nas histórias dos outros. 

 

Imagem de hr.sott.net

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