3 Junho 2017      14:00

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SAPATOS

"PARALELO 39N"

Uma tinha uns sapatos meio esquisitos calçados, cada um em seu pé trocado. Outro tinha umas botas de cabedal, aspeto usado, meio gasto, meio cansado. Outro tinha botas de trabalho, cimentadas, com um ar de biqueira de aço.

Nisto, as minhas sapatilhas, azuis com cordões alaranjados, passavam meio, e talvez não, despercebidas. Pois, eu bem as olhava e pensava cá para mim que a escolha podia ter sido menos irreverente. No fundo, pensava mas discordava. A escolha tinha sido consciente e até estava contente.

Pensa-se sobre sapatos e dou por mim a, sentado no banco do metro, parte da rotina do dia, olhar para os sapatos das outras pessoas. E fico maravilhado, meio perdido, a comparar sapatos de umas e de outras pessoas. Tento, a partir de cada calçado, imaginar a vida daquelas pessoas. Por exemplo, a daquela mulher fininha, alta, enguiçada que tem uns cabelos louros e compridos, usa óculos de quem tem mesmo falta de visão e como sapato, uma coisa muito fininha e comprida, a imitar pele de crocodilo e que nem meias usa. Terá frio? Será confortável ao menos. Tenho não fixar muito o olhar naqueles sapatos.

Viro o olhar e vejo outra imagem. A de uma mulher, vestida de gala que assenta a espinha direita sobre dois sapatos de salto grande, como se fossem de verniz e não deixassem nada atrás. Como se sustém em cima dos sapatos, como se equilibra, com o balançar do metro? Como será o conjunto que tem em casa? Pela amostra, o completo será muito mais relevante e não cabe de certeza numa só estante. O companheiro, homem comprometido pela aliança igual à dela, companheiros os dois. Quase dançavam em cima daqueles sapatos de Cinderela. Olhava para os lados e continuava a dançar, ao som do barulho que faziam as carruagens, deslizando.

Os restantes naquela carruagem, entre sapatilhas de marcas que toda agente reconhece, mesmo nos sonhos, a minha curiosidade alargava-se ao resto da vestimenta e pensava em cada uma daquelas pessoas. Pensava nas suas profissões, nos seus momentos de lazer. Uns estavam mais confortáveis e outros menos. Mas todos tinham sapatos calçados. O assessório que faz falta. Andar quilómetros sem sapatos é como fazer a maratona de sapatos formais. Nunca fiz a maratona, nem tenho o hábito de andar descalço. Certo, certo é que já gastei umas solas a subir e descer ruas numa cidade tão diversa como a tipologia do calçado que se encontra nas pessoas e no meio. E, ainda em sintonia com esta ideia, estranho é que o olhar tantas vezes parece refletir os sapatos, sandálias, sabrinas, socas, sapatilhas, botas, botins e afins que cada um usa.

Cada pessoa é um sapato diferente, nos dois pés, os dois lados da personalidade. Cada personalidade, um sapato, o lado lunar como diria o cantor. Uns mais fechados e introvertidos, outros mais faladores e coloridos. E na sua maioria, procurando o seu conforto, tentando encontrar-se a si próprio. Eu mesmo, sentando, olhando as sapatilhas que me dão o aconchego de quem caminha milhas e pensando, por comparação, na minha personalidade, à luz da psicologia dos sapatos.

 

Imagem de lojasmodaatual.blogspot.pt

 

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