10 Maio 2017      11:36

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PÓS-VERDADE

Diz a ciência que somos mentirosos por natureza. Contudo, a mentira que antes tinha perna curta consta agora que compensa. Talvez, por isso, se assista a um aumento crescente do número de sites e páginas de internet que se dedicam exclusivamente à produção e disseminação de notícias falsas ou de meias verdades.

Não importa o quão verdadeira ou honesta é a informação. O que interessa é que ela seja surpreendente, inesperada, provocativa e estimulante o suficiente para atrair a atenção dos internautas e consequentemente gerar cliques massivos para acionar publicidade digital.

Claramente, o fenómeno das noticias falsas reside no modelo de negócios adotado pelas principais plataformas digitais de publicação de informações, tais como Google, YouTube, Facebook, Whatsapp, Instagram e Twitter… Estas empresas desenvolveram e aperfeiçoaram algoritmos orientados para privilegiar os “cliques” em vez do conteúdo, não fazendo qualquer distinção entre noticias falsas ou verdadeiras. Em todos os casos, o propósito é evidente, o sistema de publicidade baseada nos cliques gerados por visitantes resulta em receitas e lucros milionários para as gigantes da internet.

Porém, o modelo de negócios assente na “caça ao clique” enfraquece o jornalismo ético e ameaça a democracia representativa em período eleitoral, acabando por legitimar uma imprensa alternativa capaz de incitar ao ódio, incentivar ignorância e estimular o preconceito.

Assim, entre o descuido e a má intenção, há quem compartilhe conteúdos nas redes sociais sem que antes verifique se essa informação é verdadeira ou falsa. Este tipo de comportamentos pode acarretar consequências para o mundo real, por exemplo: pode originar uma onda de atitudes irrefletidas de indignação que, eventualmente, pode colocar em risco a paz social e servir de correia de transmissão a investidas de projetos extremistas, xenófobos e populistas.

Conscientes de que a depreciação do valor da verdade pode significar uma perda de receitas, as principais redes sociais apressaram-se a tomar medidas para responder a essa ameaça, nomeadamente através da implementação de um conjunto de soluções tecnológicas que permita identificar, reduzir ou banir a circulação de notícias falsas.

Todavia, penso que o desafio é bem mais complicado do que aparenta e não se esgota em medidas de cariz tecnológico. Na verdade, a ausência de regulação e transparência preocupam muito mais do que o fenómeno de noticias falsas.

Por outro lado, para fazer jornalismo de qualidade é preciso contar com profissionais competentes, que não cedam ao imediatismo e que não renunciem ao código ético profissional.

Contudo, no momento atual, em que o jornalismo luta para se manter útil e relevante para a sociedade, esta classe profissional tem sido assolada por ondas de despedimentos, resultantes da conjuntura económica e que leva as empresas a recorrer ao mecanismo de sempre: despedimento de profissionais para a redução de custos, particularmente abdicando dos mais experientes.

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