3 Julho 2016      11:08

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OS (WANNABE) COOL KIDS

"INCONSTÂNCIAS"

Que seria do meu artigo, caro leitor, se este não se iniciasse com uma confissão? Sim, tenho imensas “culpas no cartório” como é hábito dizer-se, mas delas lavo as minhas mãos com a consciência tranquila de quem tirou esse peso incompreensível das costas. Não se deixe enganar, levei muito tempo a compreendê-lo, em primeiro lugar, e em executá-lo, no segundo. De que me confesso culpada, pergunta? De ter pertencido á geração dos wannabes hypes para quem qualquer movimento, seja ele extremamente importante ou totalmente supérfluo, é apenas o primeiro unlock de achievement de um lugar social extenuante.

Sei de muitos que lidaram com estas posições durante séculos e séculos – viram-nas chegar e ir embora, uma seguida de outra, chamaram-lhes modas; hoje chamamos-lhes movimentos sociais – mas devo arriscar-me a dizer que nunca foram elas tão implacáveis, cruéis e simultaneamente estupidas como esta nova onda de miúdos descolados que fingem não se importar com nada e ao mesmo tempo reclamam de tudo porque o ato revolucionário é cool e dá um certo ar de intelectualidade. Caro leitor, por certo que deve estar já a selecionar o movimento social da sua época, mas pense em como quase todos os outros que surgiram tiveram um objetivo – se correto ou útil, dependerá sempre da opinião de cada um, mas a verdade é que não deixa de ser um objetivo. Quando pensamos nos punks pensamos numa força de reação que surgiu de um governo abusador, quando pensamos nos hippies pensamos numa geração que sofria com os efeitos da guerra e queria a paz, e no fundo, eles mudaram alguma coisa e continuam a mudar – nem que seja o ânimo das pessoas que os rodeiam para tomar uma posição. Mas quando falamos desta nova onda de hipsters e projetos de pessoa (perdoem-me qualquer áspera metáfora) que utilizam a sabedoria, uma das melhores capacidades humanas, para humilhar o semelhante, parecendo esse o objetivo de todo o movimento, não poderemos dizer que algo esteja efetivamente a mudar para melhor.

Como comecei por referir, também eu já fiz parte da classe de que falo. Quando penso nisso não poderei dizer que tenha sido uma decisão mas mais um arrasto que funcionou como uma bola de neve. Vê, caro leitor, é que, como em tudo na vida, quando nos dão algo e nos alimentamos disso é isso que vamos oferecer aos outros.

Eu fui alimentada, durante muito tempo, por dúvidas acerca do valor da minha personalidade, inundada com esgares dissimulados e risinhos que se resumiam a tons silábicos sem significado inteligível mas muito hype. Fui questionada acerca dos meus gostos literários e gozada por não conseguir ler cinquenta livros num ano ou reconhecer bandas dos subúrbios do outro lado do planeta (que na verdade mais ninguém conhecia porque eram tão extremamente boas que eram mantidas em “top secret” não fosse alguém roubar-lhes as ideias “revolucionárias”). Toda a minha adolescência foi passada num constante “quem é o mais culto?” no qual eu não compreendia verdadeiramente qual a necessidade da disputa. Porque não existia a necessidade da disputa. Não existia a necessidade do “ewww” porque preferia Kundera a Murakami ou do “lol” porque batia o pé para que levassem a sério a última catástrofe mundial mais do que o último modelo da Apple. Não existia a necessidade de as relações de amizade se basearem nas relações de macho alfa, excetuando que se esse macho alfa tivesse o cabelo pintado de vermelho, mais ninguém o poderia ter. Não havia qualquer necessidade, como hoje não a há, dos comentários sarcásticos e jocosos, numa pose descontraída e inchada, pela existência de ideais. Se algo existe é mesmo a necessidade desses ideais e de se firmar o pé neles.

Sabe que eu não gosto de rótulos, caro leitor. Nunca gostei de rótulos desde o momento em que compreendi que poderia ser tudo o que queria sem dever uma justificação do que era a ninguém. Mais lhe digo que não é com preconceito ou raiva que falo da geração wannabe que criamos. É porque ela me preocupa. É porque, querendo ser a diferença na eterna massificação de um mundo globalizado, o hype é apenas mais um movimento social elitista que para pouco mais serve do que para, como a massificação se quer, nos dizer: tu não és bom o suficiente. Mas para nos dizer isso nós já temos o mundo capitalista em que vivemos – não precisamos de aceitar ouvi-lo de outra pessoa que é igual a nós á exceção do exagerado uso de camisas axadrezadas e do fluxo irritante de fotografias do Starbucks acompanhadas de um livro qualquer de um autor que já morreu, com toda a certeza (que, deixe-me dizer-lhe a verdade, provavelmente nem leram).

A questão aqui não é o exagero notoriamente forçado com que os “cool kids” se querem afirmar socialmente, ou as indumentárias pensadas ao ínfimo pormenor para serem o mais semelhantes possível ao modelito – a questão aqui é que os “cool kids” não têm um objetivo definido. Não lutam por quaisquer causas – sim, poderá vê-los esganiçados na sua página de Facebook mas nunca os verá a fazer voluntariado, por exemplo – não procuram conhecer-se e não procuram conhecer os outros. Procuram avaliá-los e compreender se são possíveis rivais ou vítimas cujo gosto musical ou a escolha indumentária possam gozar. Ou seja, coisas para as quais o nosso mundo não tem tempo.

Vivemos um momento complicado em termos sociais e a verdade é que não necessitamos de mais “cool kids”. Necessitamos de miúdos que se estejam nas tintas para se parecem cool ou não. Necessitamos de miúdos que se ajudem uns aos outros e se respeitem uns aos outros e que, principalmente, cresçam nesse processo. Compreendam que a vida é muito mais do que uma posição de fachada que tomamos para que pensem que somos muito cultos, ou muito maus, ou muito hype. Miúdos que possam ser o futuro de um mundo em que os chamados “movimentos sociais” sejam mais do que um bando de pingentes frustrados.

Aprendi da pior maneira que para se ser alguém é preciso deixar todas as ideias que temos do que devemos ser. Reconstruí-me depois da destruição idiota que foi crescer a tentar corresponder a relações de amizade abusivas (sim, elas também existem) baseadas num conceito frívolo e hoje não consigo corresponder sequer a um rótulo. E, no fundo, a liberdade é isso mesmo: não ser nada mais ou nada menos do que feliz com a simplicidade do que sou.

Para quando a tomada de quem são realmente, “cool kids”? – Rótulos sociais excluídos do pack!

 

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