8 Fevereiro 2017      09:56

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OS FILHOS DA DROGA

Hoje o ser humano vive em coexistência com aquilo que será talvez a maior criação da sua história… o espaço cibernético. Um espaço virtual que conecta numa rede informática todos os cantos do mundo, tornando possível fazer viajar informação de Sidney a Lisboa numa questão de segundos, algo que há pouco menos de 70 anos levaria semanas.

O título deste artigo, feito em analogia ao best seller dos anos 80 – lançado em 1979 e escrito por Kai Herrmann e Horst Rieck – faz todo o sentido face ao tema trazido à tona. Este livro que conta a história de Christiane Felscherinow, uma adolescente alemã de 14 anos, drogada e prostituta. O livro elucida o leitor sobre os horrores da droga vividos no fim dos anos 70 e durante os anos 80, onde a dependência de drogas pesadas era considerada uma epidemia. Tudo pela óptica da muito jovem Christiane, a quem bastaram dois anos para ir da primeira ganza até à dependência pelas injeções de heroína diárias, que a levavam a prostituir-se na estação de comboios do jardim zoológico de Berlim para conseguir pagar a dose diária de cavalo.

Hoje voltamos a lidar exactamente com o mesmo problema, idêntico, mas “futurizado”. As epidemias de heroína na Europa e EUA são problema que já lá vai, muito por culpa dos programas de educação e formação anti toxicodependência, que tanto foram impingidas nas cabeças da minha geração (e bem), ao longo de horas e horas de sessões exaustivas com associações, ong’s, forças de segurança, que nos abriam os olhos para como o flagelo da droga era destruidor de vidas familiares e fatal. Com isto a geração dos anos 90 encontra-se plenamente mentalizada que o cavalo nunca será boa ideia! Mas no entanto, esta geração mergulhou de cabeça num novo perigo, e consigo leva a geração de 2000.

Um mundo cada vez mais interligado e instantâneo oferece um vasto leque de oportunidades e vias de satisfação, também essa instantânea, como a heroína! Tanto a heroína, como o álcool, o tabaco ou o jogo, são vícios que apresentam todos o mesmo padrão. 1. experimentam-se na adolescência; 2. elevam-nos ou equalizam-nos socialmente ao nível dos outros que o fazem, para nos inserirmos no seu círculo; 3. criam satisfação instantânea sempre que consumidos; 4. geram dependência e abuso continuado, e consequentemente 5. destruição de vida social, capacidades sociais, de famílias, que levam à solidão e depressão, que em caso de falta de tratamento, 6. leva à morte, por abuso das substâncias tóxicas, mas acima de tudo, à morte por suicídio.

A internet e as redes sociais não são diferentes. 1. tem-se o primeiro contacto na adolescência; 2. permitem-nos uma equalização, subida de estatuto social e inserção em grupos; 3. cria satisfação instantânea sempre que consumido, quanto mais likes, comentários, visualizações e seguidores, mais satisfação instantânea; 4. geram dependência e abuso continuado; 5. destroem vidas sociais, capacidades sociais (porque não se comunica verbalmente e olhos nos olhos), separam famílias dentro das próprias casas, levam à solidão devido ao isolamento social, solidão essa que leva à depressão e consequentemente em caso de falta de tratamento, ao suicídio.

Nunca como hoje se registam tantos suicídios jovens, é uma causa de morte juvenil a subir exponencialmente. Paradoxal! Numa era de um mundo interligado onde a informação flui à velocidade da luz, jovens suicidam-se por solidão e depressão! Jovens esses que se olharmos para os seus Facebooks, Instagrams e Snapchats são as pessoas mais felizes do mundo com uma vida social invejável! Mas que no fundo vivem só numa vida de aparências que não passa de uma mentira. São estes os novos “Filhos da Droga”.

A internet trouxe para a vida humana coisas extraordinárias e úteis como nunca antes tinham existido. No meu telemóvel posso instantaneamente traduzir qualquer palavra de qualquer língua para português! Em segundos faço o que há 20 anos fazia em alguns minutos e apenas se tivesse um dicionário à mão, ou em horas se não o tivesse.

Tal como o álcool tem propriedades fantásticas para o ser humano! Quem não precisa por vezes de um pouco de desinibição para fechar um negócio importante com um cliente, ou para meter conversa com aquela loira sentada ali ao fundo sozinha? Mas na quantidade ideal, não queremos espantar nem o cliente nem a loira!

A verdade é que o cibermundo é exactamente igual. É uma excelente ferramenta nas quantidades certas. Mas que quando abusado, tem efeitos devastadores. O cérebro humano liberta uma substância chamada dopamina, esta substância quando libertada faz-nos sentir emocionalmente satisfeitos, dando uma sensação falsa de felicidade. Quando é que esta substância é libertada pelo cérebro? Quando se ouve uma garrafa de cerveja a abrir, que nos dá vontade de beber; quando se ouve o barulho de um isqueiro a acender, que faz o fumador ao lado automaticamente puxar de um cigarro; quando se ouve o barulho de uma slot machine, da bola da roleta ou das fichas do póquer, que fazem o jogador compulsivo puxar da carteira.

E como não poderia deixar de ser, o cérebro liberta dopamina quando o telemóvel apita em sinal de mensagem ou notificação, que faz o ciberviciado imediatamente puxar o telemóvel do bolso, como quem puxa o maço de tabaco ao ouvir um isqueiro. Não são situações diferentes, são iguais, tão iguais também às experiências de Pavlov com os cães que salivavam sempre que ouviam a campainha e pensavam que viesse um bife a caminho.

Todos os vícios orbitam em torno desta substância geradora de satisfação instantânea, e todos apresentam os mesmos padrões. Outro desses padrões é a impaciência e a agressividade. Tal como um viciado em heroína se torna impaciente e agressivo quando não lhe permitem injetar-se; tal como um alcoólico se torna impaciente e agressivo quando lhe escondem a garrafa; tal como um jogador compulsivo se torna impaciente e agressivo quando o privam do jogo; tal como um fumador se torna impaciente e agressivo quando lhe tiram o maço… O ciberviciado torna-se impaciente e em ultima instância agressivo quando lhe retiram o telemóvel, o tablet ou o PC do seu poder.

Se já lhe aconteceu ficar impaciente quando por brincadeira lhe esconderam ou tiraram o telemóvel do seu poder… é verdade, tem um problema patológico. Tal como o alcoólico ou o fumador. E a primeira desculpa que se dá é a do dinheiro que custa. Tal como o alcoólico e o fumador ao esforçarem-se por acreditar que não têm um problema.

E quando problemas reais surgem e não se conseguem resolver, ou quando os objectivos de vida não são atingidos, aparecem as depressões, e como bons viciados que são, quando se sentem deprimidos refugiam-se no vício! O alcoólico refugia-se no álcool, o jogador refugia-se no jogo, o fumador refugia-se no tabaco, o toxicodependente refugia-se na droga, e o ciberviciado refugia-se onde? Exacto, aí onde está a pensar, nos likes!

Os jovens hoje são mais impacientes, mais truculentos e mais agressivos, tanto entre si como para com os seus. Vivem numa sociedade onde tudo é instantâneo. Querem ver um filme? Internet e já está! Já não têm de sair de casa e ir ao videoclube escolher. Querem um cão? Internet e já está! O cão chega em dois dias. Querem um encontro? Internet e já está! Encontro hoje à tarde, nem sequer tiveram de passar pelo momento constrangedor de perguntar em pessoa. Estão a perder-se capacidades sociais, porque estas já não se treinam “no terreno”.

E quando estes jovens encontram uma circunstância que não é instantânea, que não possui uma aplicação para o smart phone, que requer tempo, reflexão, persistência o que é que acontece? Desistem. Porque não é instantâneo. Desistem do primeiro emprego ao fim de 5 meses porque não estão a progredir nem a causar impacto por exemplo! Quando se sabe que progredir no emprego e causar impacto é um trabalho de anos. E ficam impacientes, porque o modo de vida que levam é instantâneo, e ninguém os ensinou que há coisas que requerem paciência e tempo. E o facto de serem impacientes e agressivos entre si leva-os a viver num ambiente de banalidade do mal, que nos pode transportar para circunstâncias hediondas que há muito julgávamos mortas e enterradas. Não nos esqueçamos do panorama político mundial actual, com todos estes reaparecimentos de ondas populistas e extremistas.

Concluindo, não podemos ficar indiferentes a este fenómeno inegável. O vício cibernético é real, é tão perigoso como qualquer outro, está mais propagado do que a heroína ou o álcool alguma vez estiveram, abrange fortemente as massas jovens entre os 13 e os 30 anos, e já se nota um alastramento às gerações mais velhas. A solidão existe, a depressão existe, os suicídios existem. E este vício está a tratar de cavalgar estes números e fazer aumentar os gráficos a cada dia que passa. É urgente que as elites políticas olhem para este problema que é patológico e real, é urgente que haja educação adequada para este problema, é necessário que os pais monitorizem a vida cibernética dos filhos, é necessário impor um limite de idade ao uso da internet como existe para o álcool, jogo e tabaco, é necessário que os governos assumam que existe um problema gravíssimo para ser resolvido, porque é para isso que o ser humano criou o Estado… para se proteger dos perigos que o rodeiam, e sobretudo para se proteger dos seus próprios perigos.

Olhemos para o nosso quotidiano e observemos o problema. A Christiane, de 14 anos, que se prostituía na estação do jardim zoológico de Berlim para comprar cavalo em 1979 era um problema real. Tal como as Christianes de hoje o são.

A epidemia existe.

Imagem de capa daqui.

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