30 Abril 2017      10:51

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ORSON WELLES E “THE MAGNIFICENT AMBERSONS”

“The Magnificent Ambersons” (1942)

Não se encontra facilmente quem esteja disposto a aclamar o outro melhor filme da história do cinema. Mesmo por parte daqueles que dizem amar o cinema. De certa forma, é natural, esmagado que se encontra na memória colectiva pelo irmão mais velho, Citizen Kane. Não muito, uns (viemos a saber mais tarde) desconcertantes dez meses. Hoje diz-se muito: de filme truncado a filme destruído, do final seco e triste desejado por Welles transformado num sorriso de aceitação conciliador. O que sabemos, pela fonte, o próprio Welles, revela um coração partido devido à intromissão do estúdio. Mas isso também faz parte da lenda.

Em rigor, nada disso importa para o espectador emancipado. Sedento de se expor.

Aqui me encontro, então, disposto a afirmar: Ambersons é o meu Welles!

Qual é o segredo (ou um acesso possível)?

De entre o que ficou em Ambersons, temos em um objecto fílmico mais depurado nos elementos do que acontece em Citizen Kane, vanguardista por definição. Um processo que neste último se constrói através das possibilidades do cinema (e tanto havia para explorar em 1941, com Welles como o santo-patrono ideal), e destas reverte para a personagem; por sinal enquadrável numa outra, real, William Randolph Hearst, polémico magnata da imprensa de então.

Charles Foster Kane, majestoso e sinistro, vive distante em todos os sentidos, é como se um deus enclausurado num universo próprio que apenas podemos ver de fora. É de constituição forte inclusive no dúbio. A solidão, quando chega, é a representação da queda dos deuses, com o que nos transcende exposto num mistério do qual nos resta falar sobre, mas apenas como quem olha para o topo coberto de nevoeiro de uma montanha imensa. Rosebud, palavra mágica e enigma imanente da história do cinema, a palavra que Kane profere no momento da morte, configura a sua hipótese perdida de contacto com a humanidade, e perdida desde muito cedo. Hipótese sem porquê – apenas funciona como questão, ou, de outra forma, como espectro.

Os Ambersons, pelo contrário, nunca perdem a dimensão do humano, e por via da mais humana das dimensões, o ridículo. Por outras palavras, são demasiado humanos. Irresistivelmente humanos. Ao ridículo, Isabel contrapõe outro ridículo e perde o amor da sua vida, Eugene. Pelo orgulho, que nada mais é do que o ridículo pretensamente escondido, George, o filho de Isabel, retira à mãe a possibilidade de reencontrar o amor de Eugene, já ambos viúvos, e com isso acelera a inexorável queda da família, os tais magníficos do título. A construção no erro tonto (/risível) é apanágio dos humanos…

Numa mansão como a dos Ambersons podemos ter a ilusão de um dia ser convidados a entrar, na Xanadu de Kane não, nessa resta-nos tentar espreitar pela janela (sempre no mesmo ponto do ecrã, como se à distancia dos sonhos, independentemente de onde é observada). Digamos que há uma condição de pertença que me aproxima de Ambersons.

Quanto à presença divina: Welles, ainda se mantém, mas apenas como Narrador.

 

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