14 Maio 2017      11:57

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ODES PARTE II

The Breeders

Duas manas, nem bonitas nem feias. Enfim, duas manas feiotas. Uma mulher que mais parecia um homem. E um homem que não se parecia com coisa nenhuma. Uma espécie de Pixies do avesso. O resultado nem sempre foi equilibrado – dir-se-ia que muito naturalmente. Mas por vezes conseguiram ser geniais. Outras ainda simplesmente perfeitos, ou perfeitas – pois os cérebros eram as manas –, como em Cannonball ou em No Aloha!

 

Sparks - La Dolce Vita (1979)

Há prazeres que nem o Schauble consegue eliminar, tal como há coisas que não voltará a fazer... Estão nesta canção e respectivo videoclip. Emanam da sua essência, por assim dizer.

A vida como uma dança. E como alguém sentenciou algures, não há maior prazer do que brincar com o absoluto. Acrescento outro, afluente desse: chatear os mais altos do grupo. É a grande vitória. E quanto a ti, Tsipras, fica a saber que também tentei, e falhei. No sétimo ano andava semprecom o Pardal, que tinha mais cinco anos e três palmos do que eu. Era o maior da escola, o Pardal. Com ele ao lado, também eu era o maior, mesmo sendo o mais baixinho da turma. Um dia decidi dizer-lhe que não. Custou-me duas bofetadas, um tacho no pescoço e um pontapé um pouco abaixo da nádega esquerda. Serviu-me de lição, sim, mas deu-me um gozo inacreditável. Agora, quando olho para trás, sinto-o como um gotejar persistente de vinho com sabor a mel; curto-circuito emocionalmente induzido e alongado – e raro – entre as papilas gustativas e o córtex... La Dolce Vita do rebelde derrotado!

 

“Life isn't much, but there's nothing else to do”…

Gram Parsons: Return of the Grievous Angel

Sempre que me apetece esquecer uso a música como veículo. O que durante uma boa meia-vida não me passou pela cabeça foi vir a usar para esse efeito uma canção com raízes na música country. Até que apareceu Gram Parsons com o seu Grievous Angel. Não se explica, ouve-se.

Parece-me claro que ter descoberto um pouco antes sobre a sua morte precoce, aos 26 anos (falhou o grupo dos 27 por dois meses), e ter visto, ainda antes dessa descoberta, uma certa fotografia de um tipo com ar indefinível e de beleza no mínimo peculiar ajudou, e muito. É que recuperada a fotografia da memória durante a primeira audição, desde logo percebi: era Gram na imagem... Com o intuito de esquecer dei por mim a recordar. Por vezes, funciona assim.

 

Love: The Red Telephone (Álbum: Forever Changes)

Os Love. Um vício a que aderi tardiamente, como de resto a fumar. Consegui deixar os cigarros, não os Love... Sei de quem foi a culpa, mas não digo. Ouve isto que não te vais arrepender. E também de uma noite mal dormida em Roma. Tudo encerrado, raios partam os italianos que deixam de viver à uma da manhã, e restou-me a solidão inconcebível de um sofá de pêlo, 34 graus e 90% de humidade. Foi quando surgiram os Ansiados. Recordo os phones molhados do suor. O som aquoso. Não recordo muito do universo palpável.

Cheguei vivo à manhã seguinte, o que é mais do que óbvio. Há um vazio, do qual só verdadeiramente recuperei dois meses depois...

 

Pixies: Velouria (Official Video), cortesia da 4AD

Foi esta canção! Pois com ela, as circunstâncias que me levaram a perguntar se tudo o que antes tinha andado a ouvir (e por inerência a fazer) não teria sido uma perda de tempo. Claro que sim, foi a resposta óbvia. Não mais, pensei então. Não mais... Era uma idade em que qualquer um se pode dar a esse pequeno-grande luxo de facilmente se enganar a si próprio. Quanto ao videoclip, enfim, como dizia o anti-Lavoisier, do nada se pode, de facto, fazer tudo.

Falta o grito de guerra:

'Support 4AD!'

Imagem de capa de slackerblud.com - The Breeders

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