14 Julho 2017      16:46

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O SÃO PEDRO JÁ SE ACABOU, O S. JOÃO NEM SEQUER CÁ CHEGOU

«O provincianismo consiste em pertencer a uma civilização sem tomar parte do desenvolvimento superior dela - em segui-la pois mimeticamente com uma insubordinação inconsciente e feliz.» Fernando Pessoa

 

Da nossa feira de São João na sua presente edição de 2017, terminada há 10 dias atrás, apraz-me tecer uns comentários em jeito de texto, dada é a importância que realço do tema e para o que ele representa, ou melhor, deveria representar para a cidade, concelho, distrito e toda a região alentejana.

E sobre o conceito de provincianismo de Fernando Pessoa, não há nada mais próximo dessa classificação que o poder autárquico municipal [CDU e PS e vice-versa], sobejamente amorfo, incompetente, casuístico pelo que tem feito e deixado de fazer neste 40 anos de poder em Évora. Mas também com responsabilidades da sua população que nunca aventou outra solução, nunca se mostrou indignada com a tão fraca ambição e responsabilidade que estes autarcas foram tendo para com os seus munícipes, cidade e freguesias e foi perpetuando no tempo políticos sem visão estratégica, sem consciência cívica e sem sentido de responsabilidade e ambição.

Dito isto e, pela desilusão dos visitantes, como pelas queixas dos feirantes e outros representados na feira, como pela percepção que tive pelos espaços, pela iluminação, pela sua apresentação e decoração, pela fraca representação de entidades e ausência de actividades, esta foi provavelmente a pior edição de sempre da nossa Feira de São João. O executivo camarário liderado por Carlos Pinto de Sá não soube empreender, projectar e inovar no nosso maior certame anual, realizado desde quase os primórdios da nossa nacionalidade, já em tempos idos de D. Afonso III, em 1275. Esta feira, que tão bem agregou no passado o seu cariz cultural, económico e até recreativo, hoje em dia sente-se perdida, sem foco, sem uma orientação do que quer ser e a quem se dirigir. É uma feira para turistas que vêm visitar a cidade? É uma feira para crianças em exclusivo? É uma feira de ambição económica que visa ser a embaixada anual do que melhor temos no concelho neste sector? É um evento gastronómico de “comes e bebes” para os adultos e miúdos passarem o tempo nestes dez dias de feira que se tornam intermináveis? É um misto de feira popular com representação económico e agro-industrial da cidade/concelho?

Nada sabemos sobre isto, a não ser que o executivo de Carlos Pinto de Sá também nada sabe, nem nada define sobre tão importante assunto. Aliás, sei que se comprometeu com a população eborense na edição transacta a reformular o conceito de feira, tal como se comprometeu com partidos locais a envolvê-los nessa discussão através de uma comissão municipal [diz chamar-se de Economia e Turismo] que desconhecemos que exista ou para que serve! Passou um ano, repito, um ano sem que tenha havido essa reflexão, essa oportunidade do executivo CDU para suscitar um novo modelo de feira e daí projectar a cidade e o concelho para o futuro. Também aqui tempo é dinheiro e uma oportunidade de Évora recuperar o protagonismo passado, entretanto perdido.

O modelo actual de feira meramente popular está esgotado e insistir em repeti-lo é óbvio provincianismo, para não lhe chamar negligência. Nem outros concelhos alentejanos mais pequenos se perdem nestes rodeios e minudências. Quando têm boas lideranças, avançam e inovam. Urge pensar e convocar uma nova feira para a cidade, com um modelo de organização completamente diferente onde todas as entidades presentes sejam co-responsáveis pelo sucesso desejado e onde parceiros de renome, seja na economia, seja na cultura, desporto ou educação sejam chamados a este desafio numa lógica de responsabilidade social e regional pelo que se subentende num evento desta envergadura na maior cidade de todo o Alentejo.

Na presente edição do nosso São João, vi basicamente o mesmo padrão de feira em comparação com 2016 só que com menos gente, com menos stands, com menos comerciantes e sobretudo, com menos liderança e menos energia e ambição do presidente Carlos Pinto de Sá. Não vi nada inovador, não vi novas atracções, não vi novos espaços utilizados, não vi parcerias palpáveis e compromissos dos agentes da cidade e do concelho com esta feira e, sobretudo não vi entusiasmo no executivo camarário e, pese embora entenda esse estado de alma, não aceito que o seja de alguém que lidera e gere a nossa cidade. A ambição, o optimismo, a responsabilidade e a estratégia são elementos fundamentais para imputarmos a quem se candidata a gerir uma autarquia. Houve unicamente um tema para esta feira, tudo o resto além da questão trabalhada da água, foi uma mão cheia de nada para munícipes cada vez mais descontentes e inconformados com tanta inércia, incompetência e falta de decoro pelas nossas necessidades continuamente insatisfeitas.

Relembro, para os leitores mais incautos ou distraídos este excerto do boletim informativo da CDU designado de “Prestar Contas à População” e datado de 2001 [ano de autárquicas] – pp.8 «Novo parque de Feiras e Exposições – importante projecto para o desenvolvimento do concelho e com incidência regional, o novo Parque de Feiras e Actividades Económicas de Évora será o espaço que albergará no futuro próximo a Feira de São João, certame maior do sul do país [quando ainda o era] que poderá crescer….A Câmara Municipal adquiriu recentemente os terrenos necessários [quais terrenos?] à implementação desta importante infra-estrutura, encontrando-se o projecto arquitectónico em fase de elaboração….»

Pergunto por esta via ao sr. Presidente da Câmara Municipal de Évora se segue o diapasão aqui representado pelos seus camaradas de partidos em 2001, onde sustentavam uma dimensão ambiciosa da feira de Évora e onde apostavam [há 16 anos atrás] num novo espaço ferial para revitalizar a nossa Feira de São João?

Na minha modesta opinião, parte da solução para uma nova Feira de São João, parte pelo reformulação do âmbito e conceito de feira, por possivelmente se ensaiar um novo espaço para a albergar, pela implementação de bilheteira para custear parcialmente a sua realização, contribuindo para uma significativa divulgação, para um melhor cartaz musical e diminuir encargos aos comerciantes/produtores adjudicados, pela abertura da co-organização do espaço a outras entidades de relevância no concelho e no território [ANJE, NERE, ERT, Universidade de Évora, CCDRA, PCTA, ACDE, etc] e estabelecer um compromisso com a inúmeras associações e entidade que se aproveitam da feira para apenas amealharem o seu orçamento anual através da restauração [e algumas das quais com menos lucros presentemente], diminuindo os requisitos e encargos financeiros e logísticos para as mesmas, em contrapartida essas entidades/associações comprometiam-se a realizar na feira iniciativas conjuntas que se enquadrassem no âmbito dos seus objectivos sociais, tornando o evento mais rico, mais multifacetado e com maior dinâmica. Por último e por via indirecta, um maior e melhor tecido empresarial, tal como uma mais dinâmica economia local, ajudariam necessariamente para uma feira mais moderna, inovadora e atractiva, assim desejasse a autarquia envolver as entidades neste projecto que deve ser do concelho e estruturante para o mesmo!

Ficam aqui umas notas soltas sobre a nossa feira de São João, de aspectos que no meu entender estão mal conduzidos, de dúvidas que permanecem e também de ideias que poderiam contribuir para que deixássemos de ser os tais provincianos e abraçássemos novos e altos voos, como Évora bem merece.

Imagem retirada do sítio da CME.

Frederico Nunes de Carvalho

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